Ao Mestre Bira com Carinho
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]Morreu um vascaíno. Daqueles de se admirar, de erguer a fronte de orgulho, de encher o peito com pronta identificação, como se fora um irmão mais velho. Sangue nosso. Lá se foi o Bira, o mestre, sob a bandeira cruzmaltina que lhe cobria, acompanhado por seus “alunos” de olhares perdidos, chorosos e em um silêncio respeitoso. Ouviam-se as folhas secas no chão sendo carregadas pelos pés desavisados dos amigos em lenta procissão e se escutava cada murmúrio antes da despedida. As palavras estavam engasgadas nas gargantas e quando saíam, eram poucas, fracas, num acinzentado melancólico que nem de perto lembravam as que partiam da oratória inventiva, sarcástica e bem-humorada do senhor que seguia ali do lado, já sem o poder das suas, para a amargura de tantos.
Exercendo a mestria que sempre lhe coube, recebeu homenagens dos que ouviram suas aulas até o fim. Ganhou de presente uma terna oração de mãos dadas e um Casaca bradado com a voz que sobrara de vascaínos espalhados em todos os cantos. Ainda havia clamor para fazer daquele momento um cenário inesquecível. Quem lá esteve, viveu e foi atropelado por um instantâneo de sensações que não cabem num mero texto. Só há como dizer que um tributo a tal homem merecia como medida ideal que se cantasse “Bira!” várias vezes em uníssono.
Bira, Ubiratan, Solino, nordestino, vascaíno. Antes de tudo, um forte, como disse Euclides da Cunha. Viveu, ah, como viveu. Fez de sua força imagem e modelo para tantos que chegaram depois. Não fraquejou nunca, nem na mais ferrenha dor dos últimos dias. Foi bravo e heroico em toda sua caminhada. Criou doces amigos e viu nascer inimigos figadais com seu espírito mercurial que não compreendia meio-termo. Foi birrento, rabugento, intransigente, teimoso e pelejava como poucos por sua paixão de guri: um tal Club de Regatas Vasco da Gama. Por tal amante, dedicava horas dos seus dias e sentava no seu lugarejo de sempre à sombra esperando o passeio do que mais gostava: a simples cena de uma bola e um garoto.
Viu nascer Felipes, Bismarcks, Edmundos, Romários e outros aos montes. Uns e outros trouxe pelas mãos ao clube. Quem acreditava ser um supremo conhecedor dos meninos nascidos no berço de São Januário, as badaladas categorias de base, se sentia apenas mais um estudante na matéria em que Bira lecionava com leveza incomum, inteligência aguçada e cultura vasta. Falar da juventude vascaína era de fazer o mestre brilhar os olhos, quase lacrimejar por ter visto tanto. Sabe lá o que é ver os primeiros dribles de um Edmundo? As primeiras canetas de um Felipe? Ou quem sabe os primeiros passes geniais de um Bismarck? Ou até os primeiros gols de um Romário adolescente? Pois ele viu. Suas retinas acompanharam os alicerces de craques que se tornaram vitrines do Vasco mundo afora.
Nós, os alunos desafortunados por não podermos contar mais com suas palavras sempre engenhosas, suas dicas de novos craques, suas piscadelas irônicas, seus gracejos banhados em seus pigarros inconfundíveis, continuamos aqui sua luta. Podemos não ter a mesma tenacidade, o afinco e a obstinação que este homem teve em sua vida, mas batalharemos como eternos discípulos seus a cravar nas almas que o amor ao Vasco não encontra substituto e merece dedicação e empenho contumazes.
Que nossos minutos até o fim sejam de valentia e coragem contra o que não acreditamos ser Vasco, assim como pensava nosso mestre com desgosto. Se uma lição aprendemos foi a de que ser Vasco ultrapassa qualquer outra qualidade ou característica. Somos Vasco e isso basta. E baseados em tamanha tradição, em tão brilhante memória, faremos de tudo um pouco para levar a Nau ao seu porto seguro, contra modernidades falsas, pilhagens de jovens de categorias de base e manipulações grosseiras que tratam vascaínos como fantoches.
Que assim seja, nosso mestre Bira. E assim será.
Rafael Fabro




08/03/2010 15:46h
Brilhante texto! Brilhante como sempre, grande POETA.
Tenho certeza que o nosso BIRA, lá de cima, deve estar lendo a sua brilhante coluna, e com certeza dirá na sua modéstia:
Valeu Poetinha, eu não mereço tanto!!!!
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Chicão, como falei na rádio, seu comentário me tocou bastante. Além disso, sua emoção no sepultamento do nosso caro mestre Bira arrepiou a todos nós. Só posso te agradecer, companheiro!
Um abração!
Rafael Fabro
08/03/2010 16:03h
Belíssimo texto, Rafael, pois reflete um pouco do nosso sentimento ao Bira e ao nosso amor ao VASCO, que é ágape, ou seja, incondicional.
Eu tenho 30 anos de idade, e conheci o Bira na social do VASCO, ainda garoto, quando eu ia a São Januário com meu tio Domingos da Silva – sócio remido com 45 anos, ver o VASCO desfilar com elegância e eloquência no gramado, nos alucinando com excelentes times que formávamos.
Ele contava várias histórias sobre nosso VASCO, que muitas vezes me fez chorar de alegria e orgulho sem me importar com quem estivesse ao meu lado e ele ria muito, pois sempre chamei o flamerda de “time do capeta”, “legião do mal”, “demônio”, entre outras coisas… E ele disse pro meu tio e pra mim:
“Nunca vi, até hoje, uma criança com 7 anos de idade amar e conhecer tanto o VASCO como você, espero que continue assim, pois quem sabe você não nos ajuda a continuar esta bela história de tradição num futuro próximo”.
Guardei estas palavras com carinho e orgulho, todavia, é claro que naquele momento que ele disse isso eu me achei o cara mais vascaíno de todos, mas sou apenas mais um entre muitos de nós.
Embora eu não participe das reuniões do Casaca e muitos de vocês não me conheça, eu sempre fui um defensor do nosso verdadeiro presidente Eurico Miranda. E eu não compareço é por falta de tempo mesmo, pois tenho 2 filhos e trabalho por conta própria, então, muitas das vezes, estou trabalhando na hora que está acontecendo a reunião.
Que o Bira descanse em paz no colo de Jesus, pois quem é flamerguista senta no colo do capeta e fica no beiço do macaco.
Meu nome é Attila de Oliveira Mattos Neto
Nome do eterno presidente Eurico Angelo de Oliveira Miranda
Nome do meu filho caçula Miguel Angelo de Oliveira Mattos (em homenagem ao Euricão)
Um beijo na alma de todos!
08/03/2010 16:26h
Perfeito, Rafael.
Emocionante, tal qual os poemas são.
Saudações Vascainas,
08/03/2010 16:41h
Caro Rafael,
Ao mesmo tempo que pedimos que Deus ilumine o nosso querido BIRA, pedimos também que ilumine sempre a sua mente, e que lhe dê sabedoria para escrever coisas tão bonitas.
Parabéns, e um forte abraço
//CHICÃO// (RJ)_
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08/03/2010 17:06h
Que pena ele ter partido sem ter tido o prazer de ver o Vasco novamente Vasco.
08/03/2010 17:11h
Nada mais justo do que um Mestre render tributo a Outro. Texto perfeito! Rafael, nosso muito obrigado pela homenagem. Bira, nosso eterno carinho e reconhecimento!
08/03/2010 17:13h
Rafael Fabro:
Hoje quem me deixou com um nó na garganta, foi você…
Você conseguiu descrever com singelas palavras, toda aquela triste e inesquecível despedida do nosso amigo…
Belíssimo texto, ao merecedor Bira!!!
Parabéns Rafael, ou como o Bira dizia: PARABÉNS POETA!!!
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Sandra, no sábado você me deixou com o nó na garganta ao lembrar de como o Bira me chamava, mas eu é que devo tributos a ele por todo o sempre. Assim, só posso agradecer de coração aberto suas palavras tão carinhosas assim como as do Chicão.
Um abraço comovido!
Rafael Fabro
08/03/2010 17:44h
Lindo texto!!! Emocionante e verdadeiro!! Parabéns Rafael!!
08/03/2010 18:16h
Obrigado Fabro, obrigado Bira.
08/03/2010 18:17h
“O Homem é do tamanho do seu sonho.”
Fernando Pessoa
E o Bira foi um gigante!
08/03/2010 19:57h
Rafael,
Estive no enterro do Bira e a Sandra já disse tudo.
Assino embaixo.
Abraços e Saudações Vascainas
08/03/2010 20:05h
Aqui de Goiânia, no planalto central, rendo minhas singelas homenagens ao grande vascaíno Ubiratan Solino. O texto de Rafael Fabro expressa, certamente, o sentimento de todos nós, vascaínos como ele.
08/03/2010 20:22h
Rafael.
Sua homenagem ao falecido Bira é de arrepiar.
No entanto, uma questão que o pessoal do casaca presente ao enterro de nosso amigo pode nos responder. Quem dos revelados por Bira apareceu para prestar a ele as últimas e necessárias homenagens? Depois que o ingrato do Roberto fez com o Eurico, espero tudo de jogador de futebol (até destruir o clube que lhe garantiu o ganha pão).
08/03/2010 21:34h
Um verdadeiro Poeta.
Parabéns……
09/03/2010 0:53h
B RAVO
I NCANSÁVEL
R EDATOR
A MIGO
SEI AGORA, QUE ESTÁS MAIS PERTO DE NÓS. MAIS DO QUE NUNCA !!!
NOSSA LUTA CONTRA ESSES GOLPISTAS, CONTINUA.
EM BREVE ISSO TERMINARÁ!
E A MINHA PARTE NESSA CONQUISTA PRÓXIMA, DEDICO A VOCÊ COM UM CARINHO MUITO ESPECIAL.
VIDA QUE SEGUE, AMIGO! O TRABALHO NUNCA TERMINA, POIS A VIDA JAMAIS ACABA. A GENTE SÓ MUDA O ENDEREÇO.
TENHA PAZ !
09/03/2010 2:17h
Perdemos um soldado nessa batalha, mas não a guerra!!!
Meus sentimentos pelo guerreiro que se foi e a sua família.
Casaca Neles!!
09/03/2010 9:12h
PARABÉNS PELO LINDO TEXTO RAFAEL! O BIRA MERECIA MESMO ALGO A ESSA ALTURA!
09/03/2010 21:08h
Caro Rafael,
Seu texto, belíssimo, levou-me às lágrimas. Fiquei muito feliz e ao mesmo tempo triste. Feliz pelo texto, pelo homenagem… triste por não ter participado mais na vida com meu tio. Quanta coisa poderia ter aprendido com ele, mas… sempre atolado aos meus estudos e à minha família que nunca me sobrava momentos, nem que pudessem ser pequenos, para conversar com ele, escutar suas histórias e memórias. Passava muitas vezes apressado apenas para dar um beijo em minha avó e um tchau bem de longe e rápido… Quanto tempo perdido que não voltam mais…
Entretanto, percebo que ele fora feliz e conquistou diversos amigos, tantos quanto seu amor pelo Vasco.
Obrigado pelo belo texto!
Marcelo Solino e Iris Maria Solino
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Marcelo e Iris
Vocês da família Solino é que nos gratificam deixando palavras tão carinhosas a todos nós. Agradecemos de coração enlutado, mas tão vascaíno e apaixonado quanto o do nosso mestre Bira, o Ubiratan Solino. Que o luto de todos nós, principalmente o de vocês familiares, seja ultrapassado da forma menos sofrida possível. E que os exemplos de caráter e humanidade deixados por ele sejam cravados em todos nós.
Um grande e comovido abraço do
Rafael Fabro
09/03/2010 22:05h
Deixo meus agradecimentos a todos pelo carinho nesse momento tão difícil. Obrigado ao Attila, ao Roberto, ao Raul, ao Antonio Carlos, ao José, à Adriana, ao Claudio, ao Manoel, ao Deusdete, ao Sérgio Lamarca, ao Agnelo, ao Ricardo Vasconcellos, ao Marco Antonio e à Andrea.
É sempre reconfortante receber palavras tão ternas num momento de luto. Que Bira viva sempre como nosso mestre, nas sementes que deixou.
Um abraço a todos!
Rafael Fabro
10/03/2010 11:52h
Deixo meus sentimentos e abraços calorosos a todos nessa perda tão triste!!!