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O LADO DE LÁ DA CARTA HISTÓRICA DO VASCO

[ 28/01/2012 | 22 Comentários | Imprimir Imprimir ]

Tenho recebido com aborrecimento as últimas referências ao célebre fato da história do Vasco, do Rio de Janeiro e do Brasil que diz respeito à recusa vascaína de pertencer à segregadora AMEA em favor de seus atletas dignos e campeões. Insinua-se agora que o Vasco praticava certo amadorismo marrom acobertado por contratos de trabalho e salários relativos a eles para, sob esse manto, formar o time campeão da Cidade do Rio de janeiro de 1923. Foi assim que O Globo Esporte fez referência àquele título e esqueceu a carta com que o Vasco os consagrou em 1924, hoje cobrindo de inveja os que nem de longe têm nada parecido com isso em suas histórias e, desse modo, procuram macular aquela vitória que ultrapassou os campos de futebol.

Lembrou muito bem o Luis Fernandes, ao tomar posse no Ministério dos Esportes, aqueles que a AMEA, não satisfeita de vê-los excluídos nos seus demais afiliados, pretendeu, sob ameaça, excluir do Club de Regatas Vasco da Gama.

Entre os atletas impedidos de serem inscritos naquela liga, conforme lido pelo novo Secretário Executivo, estavam aqueles inseridos num dos dispositivos abaixo:

a) Os que não saibam ler e escrever corretamente
b) Os que exerçam profissão ou emprego subalterno, tais como contínuo, servente, engraxate e motorista.
c) Os que recebam gorjetas ou afins
d) As praças, excetuando-se os aspirantes a oficial, os alunos das Escolas Militares, os sargentos e os sorteados ou desligados da Escola Militar durante o tempo de serviço obrigatório.

Pois é, eram esses os “profissionais do futebol”: os que viviam de salários, gorjetas, enfim, os trabalhadores dos tempos anteriores à CLT. Eles eram aqueles que deviam ser excluídos do Vasco da Gama para pertencer à AMEA. Afinal, eles foram campeões de 1923 ultrajando o amadorismo da época por receberem dinheiro para trabalhar e jogar pelo time dos seus patrões. Ah, era isso. Era o dinheiro dos salários e das gorjetas o que lhes dava condições para superarem os amadores dos outros times, coitados, que não recebiam nada para jogar futebol.

Bom, alguém pode perguntar como, então, viviam os abnegados atletas do Fluminense, do Flamengo, do América, do Bangu, do Botafogo. Como podiam jogar futebol sem o apoio que tinham os jogadores do Vasco? De que jeito se viravam para defender seus clubes, todos eles firmes no propósito de não pagar a ninguém para defendê-los, muito menos empregá-los em qualquer serviço para compensar aquele desprendimento, aquele sacrifício? Sem dúvida, é preciso falar daqueles mártires da causa da AMEA, tão zelosa que era em tentar impedir a entrada no futebol dos que se dedicavam a ele pelo dinheiro recebido em seus serviços subalternos.

Porém, não vamos pensar neles com medo de que não tivessem dinheiro para comer, de que mal pudessem treinar e de que no final de cada jogo, massacrados pelos privilegiados jogadores vascaínos, caíssem desmaiados em campo, famintos e tuberculosos. Nada disso. Os jogadores dos clubes aceitos pela AMEA eram todos eles, no máximo, fiscais da natureza. Não trabalhavam para ninguém. Na sua maioria, tirando um ou outro médico que não trabalhava muito, um ou outro advogado que também não trabalhava muito, passavam o dia inteiro nos seus clubes praticando esportes. Eram todos de famílias ricas porque, como bem disse Lima Barreto, “era chic jogar futebol”. Não era coisa para pobre nenhum se meter. Daí a bronca em cima do Vasco.

Os jogadores dos clubes da AMEA é que eram os privilegiados. Mas quebraram a cara. Eles se sentiram ofendidos porque num esporte dominado pela elite um clube entrou com trabalhadores e ganhou deles. Isso era imperdoável. Deram azar porque o Vasco resistiu. Renderam-se depois à entrada do povo no futebol e começaram a dizer que foi amadorismo marrom o que eles combateram. Mentira. Eles é que tinham as melhores condições para praticar futebol. Os jogadores deles podiam se dedicar aos treinos sem preocupações financeiras. Os do Vasco não. Os do Vasco tinham de trabalhar. Por isso me dá nojo que hoje queiram dizer que o Vasco por ter um time de trabalhadores cometeu um delito esportivo. Não cometeu, não. O Vasco simplesmente abriu as portas do futebol para que trabalhadores pudessem competir com granfinos vagabundos que não faziam nada na vida. Aqueles granfinos não precisavam de dinheiro para jogar futebol. Isso eles tinham de sobra.

Com o profissionalismo, tudo aquilo mudou, mas a marca da coragem vascaína ficou na história. Não há razão para despeitados ficarem falando mal do título de 1923 por alguma violação das regras da época. Mas eles falam, como falam mal de tudo que é do Vasco.. Enfim, que calem a boca. Afinal, o passado deles é uma vergonha. Vergonha que tentam esconder acusando o Vasco por ter, com um time de trabalhadores, vencido a todos eles com seus times de privilegiados.

Valter Duarte Ferreira Filho

22 Comentários »

  1. Paulo Salles
    28/01/2012 10:05h

    E assim é até os dias de hoje.
    Mas muita gente, muito vascaíno também até hoje não se deu conta.
    E nem conhece a história do próprio clube.

  2. Guerra
    28/01/2012 10:12h

    Por esses motivos falo e repito.
    Antes de nascer já era Vascaíno,ao nascer já tinha pele vascaína, ao saber sua história aprendi a amar como nunca e ver sua luta me lembra o meu carater.
    Na verdade ser VASCO é uma concepção divina!!!!

  3. zé carvalho
    28/01/2012 10:17h

    Esta é mais pura verdade..parabéns pela coluna Valter Duarte, eu gosto deste Vasco Tradicional que sempre lutou e lutará contra tudo e todos..SV

  4. Márcio Magalhães
    28/01/2012 11:09h

    Sumida, voltaste com um grande texto e de forma triunfante.

    Mais uma prova da inveja mortal que eles tem do CRVG e como atuam no seu jornalismo imparcial.

    Hoje, eles não tem a força de outrora, fruto principalmente desta ferramente maravilhosa que é a internet e as redes sociais, fazendo com que suas patacuadas caiam por terra em poucos minutos.

    Parabéns pelas novas conquistas profissionais, mesmo “de longe”, torço muito por você!

    Bjo no coração, fique com Deus,
    SV
    xxxxx
    Márcio este é o Valter e não a Vanda (hehehe).

    Abraço,

    Sérgio Frias

  5. Luciano Meirelles
    28/01/2012 11:47h

    A expressão “bicho” surgiu em razão dos prêmios que o Vasco destinava aos atletas em caso de vitória. Diante disso eu pergunto: – Que profissionalismo há no pagamento de um porco ou de um quarto de vaca a um atleta?
    E pergunto mais: – Que profisonalismo há no fato de colocarem os jogadores para correrem em volta de um campinho improvisado num terreno baldio?

    Realmente os atletas “profissionais” do Vasco eram regiamente pagos e dispunham de uma estrutura de fazer inveja ao Novo Vasco. Os argumentos empregados por essa turma que tenta falsificar a história são ridículos.

    Eu gostaria que algum historiador sério investigasse o passado das instituições coloridas para verificar se os nobres membros desses clubes tinham alguma ligação concreta com sociedades de eugenia ou com o movimento nazista. É verdade que o rival trocou as cores azul e amarela pelo vermelho e preto em razão de simpatia pelos ideais representados pela Alemanha nazista? Eu gostaria de ter certeza disso.

  6. Henrique Niemeyer
    28/01/2012 12:28h

    Valter,parabéns pela sua coluna ,que é um exemplo para alguns “novos vascaínos” que por não conhecerem a história e as tradições do nosso Vasco ,não lutam por elas.
    Guerra,o seu comentário é a minha história .Pior que ainda nasci (veja meu sobrenome) numa família de urubus .Apesar de toda campanha contra , minhas 4 filhas e 4 dos meus 6 netos são Vascaínos .Foi uma luta!

  7. Cláudio Ribeiro
    28/01/2012 12:45h

    Luis Manuel Fernandes, Walter Ferreira e muitos outros que escrevem a história vascaína respeitando o compromisso com a verdade. Em pensar que existe um busunta dessa diretoria que ainda tem a coragem de usar o trinômio do inferno em vão, competência, transparência e credibilidade. Miserável, cara de pau o delfos de jardim ongueiro do PCC, pessoas como êle e o Jorge Nunes me lembram de um irmão que desencarnou que dizia, baixinho ( de tamanho e espírito) serve pra três coisas, levar recado, tomar cascudo e tomar caju, toda regra tem a sua exceção, mas são dois exemplos que podemos pensar assim. Eu conheço muito mais baixinho bom caráter do que mau caráter, a altura fisíca nada tem a ver com o caráter, como conheço gigantes que são anões, mas esses se enquadram na citação do mestre Oliveirinha, anões anões, um dos maiores vascaíno que conheci.

  8. Attila Neto
    28/01/2012 13:26h

    Que texto emocionante, Nobre Valter Duarte Ferreira Filho!

    O VASCO Clube é tão desbravador quanto o VASCO Almirante.
    Sempre fomos pioneiros em tudo.
    Essa é a nossa marca. A marca da coragem, do respeito, da dignidade e do amor pelo que fazemos e acreditamos.

    Parabéns pelo belíssimo texto, Nobre Valter Duarte Ferreira Filho!

    Um beijo na sua alma e um excelente final de semana!!!!

  9. Antonio Carlos Miranda
    28/01/2012 13:29h

    Por isso é que o CRVG não pode continuar sendo desadministrado pelo banana Dinamite, o embusteiro.

    Parabéns, professor! Coluna de altíssimo nível.

  10. Ronaldo Lima
    28/01/2012 14:59h

    O CRVG resistiu até a metade de 2008. Um dia ele voltará a ser a resistência que sempre foi. O Casaca existe para que isso aconteceça.

  11. Ricardo Augusto
    28/01/2012 15:07h

    Pois é. É isso aí.

    Pobre e preto podia jogar bola. Desde que fosse na rua, longe das casas chics e com o pé nu.

    Jogar futebol e ainda ser campeão? não teve perdão. Até hoje o Vasco sofre. Mas, é uma dor boa. DIGNA.

    É bom não esquecer também o anti-lusitanismo. Minha Mãe, doce vascaína( como a famíla toda)não esquecia. Sempre comentava diante de alguma atitude semellhante: não seja jacobino!

  12. ANDRE MOREIRA
    28/01/2012 15:37h

    Parabéns pelo texto, Professor Valter.

    O Vasco da Gama está doente, pois faltam vascaínos como você, e toda a galera que luta pela volta do verdadeiro CRVG.

    O discurso no Luis Manoel Fernandes foi para lavar a alma do vascaínos que sentem falta do genuíno Vasco da Gama.

    CASACA!!!

  13. Renner Monnerat
    28/01/2012 21:01h

    O ilustre Luis Fernandes não confundiu a carta da AMEA com a resolução que tentaram passar na federação de remo na década de 30 e mais uma vez o Vasco se impôs?
    xxxx
    Não, Monnerat. A segunda é que se baseia na primeira (esportes aquáticos).

    Arnaldo Guinle presidiu ambas.

    Abraço,

    Sérgio Frias

  14. Augusto Aristides de Ataide
    29/01/2012 1:45h

    Obrigado por esse texto e uma Verdadeira aula de VASCAÍNISMO Professor Valter Duarte Ferreira Filho, por resgatar a mais bela história de resistencia e o exemplo a ser seguidos por Vascaínos, que se orgulham do seu passado de lutas, perseguições e de resistencia contra a Elite dominante!

    Queremos resgatar o Vasco da Gama CIMEIRO, INDEPENDENTE e ALTANEIRO,e que tem a sua VOZ ATIVA com a suas raizes e a sua IDENTIDADE PRESERVADA!

  15. José Oliveira
    29/01/2012 6:55h

    PErfeito Sr. Walter.
    Eu vi da mesma forma o filminho da globo: Pejorativo ao nosso clube.

    Como temos hoje em nosso clube um grupo de safados, vendididos e muitos sequer vascaínos, daqui a uns anos essa história será modificada e nós vascaínos seremos os vilões da década de 20 no futebol brasileiro.
    Não duvidem de que um dia a imprensa dirá que o preto da camisa do flamengo é uma homenagem a raça negra. Quem viver verá!

  16. Decio Caldas
    29/01/2012 13:25h

    Caro Valter,me permita um breve relato dando nome aos
    bois(sem trocadilho,garanto):Cerca de 2 meses vi no canal ESPN Brasil o escritor,crítico musical, jornalista(ex editor de esportes de jornais de grande tiragem ,o antigo Jornal do Brasil,por exemplo)João Máximo trabalhando na divulgação de um livro que acabara de publicar.À certa altura do bate papo com os apresentadores ,João Máximo,tricolor assumido,relata que o início da sua vida profissional, logo após se formar em odontologia,foi no VASCO DA GAMA em seu DM.Mais adiante citando fatos da história do futebol do Rio de Janeiro fez referência a esses episódios abordados nessa sua coluna e conclui ,com a pronta anuência do “gênio”PVC,que as conquistas do time doVASCO naquela época foram conseguidas de forma anti-ética.Tenho certeza que se outro clube,não o VASCO, contratasse treinador uruguaio (futebol modelo no continente à época), selecionasse e desenvolvesse atletas de bom nível, desse condições de preparação física a estes e ,por fim, criasse um modelo de remuneração para resultados alcançados,esse clube seria incensado para todo o sempre como o precursor do futebol moderno em nossas plagas.Me admira o João Máximo,com o currículo que ostenta preferir uma interpretação tão pobre,mesquinha até, muito abaixo da capacidade de analise demonstrada em escritos abordando personagens e fatos do futebol.Enfim,caro Valter,parabéns pela coluna e pelo espírito de não deixar sem resposta qualquer agressão a instituição VASCO DA GAMA.Um abraço.

  17. Marcelo Azevedo
    29/01/2012 15:55h

    Esse jornalismo de merda, tendencioso e manipulador é de dar nojo. Mentirosos miseráveis, tenham vergonha na cara uma vez na vida, sejam homens uma vez na vida e falem a verdade. A dignidade agradecerá.

  18. Ricardo Augusto
    29/01/2012 19:24h

    Evidente. Recém-saído do escravismo, o Brasil ainda conservaria- durante um bom tempo- os símbolos da cultura escrava. Tratar com boas condiçoes um grupo de pobres negros não era ético.

    Como hoje, muitos liberais de merda dizem: temos que reformar a CLT!

    Sai prá lá seus defuntos. Devem achar que o repouso semanal, férias, assistência médica e previdência social são recursos anti-éticos.

  19. Manoel Pereira
    29/01/2012 20:22h

    É evidente que a mal-cheirosa Globo teria que dar sua versão pestilenta para àquela postura histórica do Vasco!

    Torço muito pra tua hora chegar, Globo!

    Parabéns, Valter Ferreira!

  20. Marcos lapenda
    01/02/2012 11:28h

    Tenho dito em reiteradas oportunidades que a grande estratégia dos donos do poder é realçar o tamanho da torcida.A disputa esportiva com resultados positivos é consequência do trabalho de conquista da simpatia daqueles que, indiferentes ao futebol e suas paixões,têm interesse em ser parte do poder.

    Assim estão sendo formadas as torcidas do Flamengo e do Corínthians.Objetivos:condução da massa de manobra e acumulação de riquezas através da política e da propaganda esportiva.

    As editorias de esportes no Brasil estão totalmente comprometidas com estratégias de manipulação popular.Claro, estão a serviço das elites e de intelectuais-até eles-sem compromissos com a verdade.

    O Vasco da Gama é imortal!É componente físico e emocional de uma sociedade que conseguiu pular obstáculos colocados com crueldade pelos poderosos, desde a assinatura da Princesa Isabel, libertando os escravos no Brasil.O Vasco da Gama é libertador dos pobres e oprimidos e seu campo,São januário-abrigo seguro e indefectível das mais justas reivindicações do povo.
    A carta referida no artigo em epígrafe é documento histórico que abre, em definitivo, o testamento de cidadania que o Vasco ensinou para nós todos!

    lembro à torcida do Vasco que devemos nos preocupar com nossa torcida;inclusive para aumentá-la, para não ficarmos a mercê das conspirações da imprensa elitista e dos comentários dos bacanas da zona sul do Rio de Janeiro.

    A carta da federação dos bacanas deve ser distribuídas para todos os vascaínos. sócios e torcedores.Ela é nossa identidade, razão de viver e torcer para o glorioso Vasco da Gama.

  21. Lucas Miguel
    02/02/2012 0:36h

    Brilhante texto.

    Sem mais

    SV

  22. Salazar Fonseca Jr
    03/02/2012 12:01h

    Valeu Walter,

    Simplesmente E M O C I O N A N T E o teu texto.

    Fui às lágrimas que só um vascaíno pode derramar pelo orgulho da história de um clube.

    Saudações vascaínas.

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