No calendário popular, existe um dia curioso em que se malha o Judas. Uma tradição simbólica, quase pedagógica, para lembrar o preço da traição. Curioso como certas figuras parecem querer encarnar o personagem o ano inteiro.
Tratando-se de Vasco, é verdade que o clube foi tirado de mãos erradas. Há mérito nisso, e é preciso reconhecer. Mas salvar não pode servir de justificativa para uma nova entrega, como se a solução fosse apenas trocar de dono, como se a história centenária pudesse ser passada de uma empresa a outra sem consequência. O que se vende como saída não pode ser apenas a repetição do mesmo erro com nova embalagem.
Enquanto em outras partes do mundo se discute devolver Estatais ao seu povo, por aqui, no futebol, a pressa é entregar. Entregar patrimônio, identidade e decisão. Sempre com a promessa de eficiência, quase nunca com garantias reais de compromisso.
O associativo erra, falha, tropeça. Mas ainda pertence. Ainda permite reação, mudança, voto, ruptura. Já a empresa, quando não funciona, transforma paixão em contrato e torcedor em refém.
E talvez o mais revelador nem seja a ideia em si, já enraizada em muitos, mas a postura. Quem foge da responsabilidade, cria inimigos imaginários e administra na base da desculpa. Demonstra fraqueza. E falta de convicção nunca combinou com quem carrega nas mãos o destino de algo que não lhe pertence.
No fim, o ritual de hoje não é sobre bonecos de pano pendurados em postes. É sobre memória. Sobre lembrar que toda traição tem seu preço, e que quem escolhe esse caminho pode até tentar reescrever a própria história, mas jamais controlar a forma como será lembrado.
