Arquivo da categoria: Tiago Scaffo

Nós vamos voltar a sorrir

Está doendo. Dói de um jeito que não cabe no corpo. Dói na garganta, no peito, na memória. Dói porque acreditamos. Porque sonhamos. Porque, por alguns instantes, vimos o futuro se abrindo diante de nós. E ele se fechou de forma brutal.

O que vivemos no Maracanã não foi apenas uma derrota. Foi um luto coletivo. Foi o silêncio depois do apito final. Foi o choro contido, depois solto. Foi a sensação de ter perdido alguém que faz parte da nossa vida. Alguém da família. Porque o Vasco é isso. Não é um clube apenas. É vínculo, é herança, é identidade, é amor que atravessa gerações e ignora qualquer lógica.

Essa dor não é sinal de fraqueza. Ela é a prova do amor. Só sofre assim quem ama de verdade. Só sente esse vazio quem colocou o Vasco acima de muitas coisas, acima de outros afetos, acima da razão. E nós colocamos. Sempre colocamos.

A noite de domingo ficará marcada para sempre. Talvez como a maior dor que um vascaíno já sentiu. Não apenas pela derrota em si, mas pelo que ela representava. A possibilidade de um título. A chance de uma virada histórica. A sensação de que, finalmente, o caminho estava mudando. Que o peso dos últimos anos estava prestes a ser deixado para trás. Que um portal, tantas vezes fechado, começava a se abrir para a grandeza que sempre foi nossa.

Mas a nossa história nunca foi feita apenas de glórias. Ela também é feita de quedas. De tropeços. De injustiças. De erros. E, paradoxalmente, foi justamente isso que fez o vascaíno amar ainda mais esse clube. Um amor que não se explica, que não se mede, que não se abandona.A derrota de ontem bateu no teto da dor. Foi frustrante. Foi decepcionante. Foi cruel. O torcedor chegou ao limite. Mas a história não termina ali. Ela nunca termina ali.

Agora é o momento mais difícil. É o momento de juntar os cacos. De engolir o choro. De aceitar o luto. De sentir a revolta. De cobrar. De xingar o mundo, se for preciso. Porque dói demais. Porque a expectativa foi gigante e o retorno não veio. Hoje é como o dia seguinte ao enterro. Tudo parece sem cor, sem sentido, sem chão.Mas, mesmo assim, existe algo que não morreu. A certeza.

Não é só esperança. É convicção.Nós vamos voltar.Voltaremos porque a nossa história exige isso. Voltaremos porque um clube que atravessou oceanos, preconceitos, títulos, tragédias e reconstruções não se perde em uma noite, por mais dolorosa que ela seja. Voltaremos porque o Vasco é maior do que os erros, maior do que as derrotas, maior do que qualquer fase.

Um dia, essa ferida ainda aberta será cicatriz. Um dia, vamos lembrar da noite de 21 de dezembro de 2025 e dizer que doeu, mas que valeu a pena continuar. Valeu o choro. Valeu o luto. Valeu o amadurecimento. Valeu não desistir.Hoje é dia de sofrer. Amanhã será dia de resistir. E, mais à frente, será dia de celebrar.

Depois da tempestade, depois desse mar revolto, o Vasco vai se reerguer. E nós estaremos aqui, como sempre estivemos. Firmes. Machucados. Mas leais.Nós vamos voltar a escrever páginas de glória.

Nós vamos voltar a vencer.Nós vamos voltar a ser grandes.Porque o Vasco não morre.E o vascaíno sofre, mas nunca abandona.Nós vamos voltar a sorrir!

Autor: Tiago Scaffo e a Imensa Torcida Vascaína

Das Tempestades ao Porto da Glória

Há 30 anos, eu ainda não sabia quem eu era, nem o tamanho do amor que caberia dentro do meu peito. Eu era apenas uma criança, caminhando sem mapa, sem rota, sem porto seguro. Foi então que eu te vivi, Vasco, e desde aquele instante passei a atravessar mares ao teu lado. Vivi alegrias que iluminaram dias, dores que me ensinaram a resistir, esperas que me moldaram a alma, quedas que me fortaleceram as pernas. Dizem que o amor pelo Vasco não mudou. Mudou, sim. Cresceu como crescem as coisas eternas, no silêncio, na luta, na persistência. Hoje ele é maior, mais consciente, mais profundo, mais indestrutível do que jamais foi.

Agora faltam apenas dois jogos. E acreditar nunca foi escolha, sempre foi destino. Acreditar é o nosso idioma, a nossa herança, a nossa forma de existir. Porque, se Vasco da Gama não tivesse desafiado o Cabo da Boa Esperança, o mundo não teria se aberto em novas rotas. Não carregamos apenas um nome, carregamos a coragem de quem enfrenta o desconhecido e segue em frente.

O que pulsa hoje no coração vascaíno é resposta. Uma resposta escrita com suor, com fé, com memória. Resposta a quem tentou nos diminuir, a quem ousou nos chamar de pequenos, a quem quis apagar nossa grandeza com palavras vazias. Tentaram nos igualar ao que nunca fomos, tentaram rebaixar nossa história ao nível do comum. Mas o Vasco não é comum. O Vasco construiu. O Vasco conquistou. O Vasco deixou marcas que o tempo não apaga.

O Vasco é mais do que um clube grande. É origem, é valor, é causa. É um celeiro de ídolos que não cabem em listas curtas, ídolos que atravessam gerações como faróis acesos no nevoeiro. Ontem, o vascaíno viveu uma noite que não cabe no calendário. Houve um momento em que tudo silenciou, e só restou a fé. E ninguém conhece melhor a fé do que aquele que aprendeu a acreditar quando o mundo inteiro já havia desistido.

O Vasco tem uma sede. Uma sede que não se contenta com títulos apenas. Ela vive em São Januário, mas mora, sobretudo, dentro de cada vascaíno. É chama que não se apaga, raiz que não se arranca, voz que não se cala. O verdadeiro vascaíno não abandona. Não negocia. Não esquece. Porque o Vasco não é circunstância, é identidade. Foi forjado na dificuldade, moldado na adversidade, lapidado na dor. Nada nunca foi simples, e por isso mesmo, tudo o que ele conquista carrega peso, verdade e grandeza.

E ainda assim, ou exatamente por isso, o Vasco sempre segue. Nossa história é feita de glórias e tempestades, de vitórias e noites longas. Nunca prometeram mares calmos, mas sim a certeza da travessia. O Vasco é um almirante histórico, e quem carrega esse nome aprende a enfrentar o vento, a onda, o escuro. Mas aprende, sobretudo, a chegar.

O barco balança. A caravela range. O oceano testa a coragem. As adversidades se acumulam como nuvens pesadas. Mas há uma certeza que atravessa tudo, nós vamos superar. Vamos vencer. Vamos alcançar o destino. E o nosso destino sempre foi a glória.

Em algum ponto do universo, esse caminho já está traçado. Porque ninguém apequena o que nasceu gigante. Ninguém apaga o que foi escrito com coragem. O Vasco nasceu grande pela sua história, pelas suas conquistas, pelas lutas que escolheu travar, pela forma como encara cada batalha, pela maneira como se reconstrói quando tentam derrubá-lo.

O Vasco da Gama é um colosso. Não é apenas esporte, é humanidade. É gesto, é posição, é legado. Contribuiu para o futebol, para a sociedade, para a dignidade. E isso não se apaga. E como diz a brilhante frase: “Enquanto houver um coração infantil, o Vasco será imortal”.

A vitória de ontem não foi apenas um placar. Foi um sinal. Um aviso. Mostra que o tempo não vence quem sabe esperar, que a dor não derrota quem sabe resistir. Mesmo que leve quatorze anos, nós voltamos. Sempre voltamos.

Pode vir o mar que for. A caravela pode balançar, mas não afunda. Ele segue. E quando enfim tocarmos o Porto da Glória, vamos comemorar como só nós sabemos, intensos, apaixonados, vivos demais. Porque ninguém ama como o vascaíno ama o Vasco.

Saudações Vascaínas!
Seremos campeões! 💢🏆

COMENTAR E COMANDAR: EIS A DIFERENÇA!

O que se viu na última noite em São Januário não foi apenas mais um jogo de futebol. Foi a prova escancarada da diferença entre quem fala sobre o jogo e quem carrega nas costas a responsabilidade de comandar um clube como o Vasco da Gama. Não é papel para covardes, nem para burocratas de gabinete. É função para quem entende que o Vasco não é só bola rolando: é história, é povo, é arquibancada que não aceita silêncio diante de injustiça.

Pedrinho, comentarista de sofá durante anos, viveu ontem a pancada da realidade. No estúdio, o ar-condicionado refresca, a poltrona é macia, e criticar dirigente é moleza. Na beira do campo, com o coração da torcida pulsando, a cobrança é diferente. Eurico Miranda, que tanto foi criticado por Pedrinho em seus tempos de microfone, sabia disso melhor do que ninguém: ser presidente do Vasco não é fazer análise fria, é viver em guerra constante.

E a guerra foi declarada. O árbitro João Vitor Gobi fez vista grossa para entradas criminosas em Philippe Coutinho e Puma Rodríguez. Lances de expulsão claríssimos viraram apenas faltas. O Bahia teve um expulso? Sim. Mas e os outros? A cada dividida ignorada, crescia o risco de ver o Vasco perder seus principais jogadores por semanas, talvez meses. E aí? Quem paga essa conta? A torcida? O técnico? Não. Quem paga é o clube inteiro, que vê sua temporada comprometida.

Foi nesse cenário que Pedrinho explodiu. Partiu para cima do árbitro no intervalo, teve de ser contido por seguranças e policiais e acabou relatado na súmula por ofensas. Para alguns, descontrole. Para a arquibancada, finalmente um sinal de vida. O presidente deixou de lado o verniz de comentarista e mostrou que, sim, sente o que a torcida sente.

E aqui não tem como fugir: Eurico, com todos os seus excessos, nunca deixou o Vasco ser pisado sem resposta. Berrava, peitava, brigava com a CBF, com a imprensa, com quem fosse preciso. Podia ser exagerado? Sem dúvida. Mas omisso, nunca. E o vascaíno, mais do que tudo, não perdoa presidente frouxo.

Ontem, Pedrinho mostrou, talvez, entender o que significa vestir a faixa de presidente no peito. O Vasco não é “queridinho” da mídia, não tem tapinha nas costas da CBF, e o torcedor sabe disso. O Vasco é tratado sempre com desconfiança, quase como um intruso incômodo. Por isso, o presidente tem que ser o escudo. Não para fazer cena, mas para deixar claro: aqui ninguém pisa.

Mesmo vencendo, a noite poderia ter acabado em tragédia esportiva. Bastaria Coutinho sair de maca, ou Puma sentir o joelho, para todo o restante temporada ser comprometido. É esse o ponto: a vitória não basta se o respeito não vem junto. Dentro e fora do campo, o Vasco precisa se impor.

O torcedor não quer presidente de gabinete, quer presidente de arquibancada. Não quer silêncio diplomático, quer voz firme. Não quer um dirigente que se esconda atrás de notas oficiais, mas alguém que desça para o gramado e encare quem for preciso. O Vasco não nasceu para ser submisso. O Vasco nasceu para enfrentar, para incomodar, para resistir.

Pedrinho, ontem, deu um passo. Pequeno, mas significativo. Mostrou que pode largar o papel de comentarista distante e começar a agir como dirigente de verdade. O caminho é longo, cheio de armadilhas e pressões, mas já está claro: comandar o Vasco é lutar. Todos os dias, contra todos os poderes. Porque aqui não basta ganhar jogos, é preciso ganhar respeito.

E o respeito precisa voltar! Ponto.

Tiago Scaffo

FLAMENGO, MÍDIA E A VIOLÊNCIA NO FUTEBOL: QUANDO O “MAIS QUERIDO” SE COLOCA ACIMA DO BEM E DO MAL

O mês de setembro de 2025 expôs, de forma dolorosa, a face mais sombria da relação entre futebol, violência e construção simbólica de poder. Em três episódios distintos, todos envolvendo torcedores do Flamengo, vidas foram ceifadas, trabalhadores tiveram seu direito à dignidade violado e a rivalidade esportiva extrapolou para o campo do crime. O primeiro caso ocorreu em 11 de setembro, próximo à estação de trem de Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, horas antes da partida entre Botafogo e Vasco. Mesmo sem que o Flamengo estivesse em campo, integrantes de uma torcida organizada do Flamengo protagonizaram cenas de barbárie, efetuando disparos de arma de fogo contra vascaínos. O ataque deixou feridos e culminou na morte de um torcedor cruzmaltino.

Os outros dois episódios ocorreram em 21 de setembro. No Rio de Janeiro, uma vendedora ambulante, trabalhadora e vascaína, foi brutalmente agredida por torcedores rubro-negros nas imediações da partida no Maracanã. Além da violência física, perdeu toda sua mercadoria, seu sustento diário, e viu comprometida também sua atividade social de apoio a cães abandonados. No mesmo dia, em Brasília, outro torcedor vascaíno foi esfaqueado até a morte, também por flamenguistas, em mais um ato de intolerância que transforma a rivalidade esportiva em sentença de morte. Esses episódios, embora distintos, fazem parte de um mesmo processo: a violência simbólica e estrutural associada ao futebol brasileiro, em especial quando se trata do Clube de Regatas do Flamengo.

A CONSTRUÇÃO DO “MAIS QUERIDO” E O DISCURSO DA SUPREMACIA

A imagem do Flamengo como clube “supremo”, “maior”, “inquestionável”, “acima do bem e do mal” não é um fenômeno espontâneo. Ela foi construída historicamente por narrativas institucionais e midiáticas. A alcunha de “O Mais Querido”, por exemplo, surgiu em um concurso de popularidade em 1927, mas sempre esteve cercada de disputas políticas e comerciais. Décadas depois, tornou-se até objeto de briga judicial entre o clube e a TV Globo pelo direito de registro da marca. Isso mostra que não se trata apenas de afeto popular, mas de poder simbólico e mercadológico.

O episódio de 1927, conhecido como a disputa da Taça Salutaris, é revelador desse processo. Na ocasião, vascaínos e flamenguistas mobilizaram-se para decidir, por meio de votação popular, quem seria o “Mais Querido”. Os portugueses, majoritariamente vascaínos e com maior poder aquisitivo por serem comerciantes, consumiram em massa a água mineral promotora da votação e juntaram milhares de rótulos para o clube de São Januário. Diante disso, flamenguistas organizaram uma fraude: disfarçados de portugueses torcedores vascaínos, recolheram votos que seriam destinados ao Vasco e os jogaram em privadas e até no poço de um elevador, inutilizando-os. Assim, o Flamengo se sagrou “O Mais Querido” não pela legitimidade popular, mas por meio de trapaça. Essa origem é simbólica: a alcunha máxima do clube nasce de um ato de fraude, que foi naturalizado ao longo do tempo e até exaltado como parte da identidade rubro-negra. O recado que fica para torcedores e para a sociedade é perigoso: mesmo na trapaça, mesmo no “roubo”, o Flamengo segue sendo celebrado como vencedor, consolidando a ideia de que, se for a favor do clube, tudo é permitido.

Somado a isso, declarações públicas de jogadores e dirigentes, como a célebre frase do goleiro Felipe, em 2014, de que “título roubado é mais gostoso” após um gol irregular decisivo, normalizam a percepção de que irregularidades, quando em benefício do Flamengo, são aceitáveis ou até desejáveis. Esse tipo de discurso, amplificado sem a devida crítica pela imprensa, reforça o imaginário de que o clube estaria acima da crítica, da lei e até da moral esportiva. É justamente nesse ponto que o tratamento diferenciado recebido pelo Flamengo começa a se converter em comportamento social. Quando a mídia e parte da opinião pública insistem em tratá-lo como intocável, como entidade acima do bem e do mal, seus torcedores absorvem a mensagem de que também podem se colocar nesse patamar. Cria-se um sentimento de impunidade simbólica: se o clube é constantemente favorecido, se seus erros são relativizados, se escândalos graves são tratados com complacência, por que o torcedor deveria se ver limitado pelas normas sociais? Essa percepção de privilégio se transforma em prática concreta, legitimando a violência.

O resultado é revelador: desde a fraude da Taça Salutaris em 1927, que deu origem ao título de “Mais Querido” não pela legitimidade, mas pela trapaça, até a frase do goleiro Felipe, em 2014, de que “título roubado é mais gostoso”, o Flamengo construiu uma narrativa em que o “roubo” ou a irregularidade, quando a seu favor, não apenas é tolerado, mas celebrado como parte da identidade rubro-negra. Esse padrão histórico, amplificado pela mídia sem contraponto crítico, envia uma mensagem direta à sociedade: mesmo na trapaça, o Flamengo é exaltado. Daí nasce um efeito mimético perigoso, se o clube pode ser “o mais querido” fraudando votos, se pode comemorar títulos manchados e ser protegido por narrativas condescendentes, por que o torcedor não poderia também agir como se estivesse acima da lei? É essa naturalização da superioridade e da impunidade simbólica que, convertida em prática social, legitima a violência real: a pedra arremessada, o soco desferido, a facada, o tiro.

O PAPEL DA MÍDIA E A LEGITIMAÇÃO DA VIOLÊNCIA

A mídia esportiva brasileira tem responsabilidade central nesse processo. O Flamengo recebe cobertura desproporcional em relação a outros clubes, com exaltação constante de suas vitórias e minimização de suas falhas. Quando se trata de escândalos, como o envolvimento de jogadores em manipulação de apostas ou a tragédia do Ninho do Urubu, que matou dez jovens atletas em 2019, o tratamento frequentemente é complacente, diluindo responsabilidades. Esse desequilíbrio não é apenas questão de parcialidade jornalística: é construção de narrativa. Ao naturalizar privilégios, ao reforçar a imagem de que o Flamengo é “maior” ou “inquestionável”, a imprensa alimenta um ciclo em que parte da torcida se sente legitimada a agir sem limites. A violência, nesse sentido, não surge do nada; ela é alimentada por anos de discursos que colocam um clube em posição de supremacia dentro do campo esportivo.

A LEITURA SOCIOLÓGICA: CAPITAL SIMBÓLICO E VIOLÊNCIA ESPORTIVA

A sociologia ajuda a compreender esse fenômeno. Maurício Murad, em A violência no futebol (2012), aponta que os confrontos entre torcidas não são apenas eventos esportivos, mas expressões de violência estrutural em uma sociedade marcada por desigualdade e ausência de políticas preventivas. Pierre Bourdieu, ao falar do “campo esportivo”, lembra que os clubes disputam não só títulos, mas também capital simbólico: prestígio, legitimidade, visibilidade. Quando um clube monopoliza esse capital, como o Flamengo faz com o apoio midiático e a retórica de “mais querido”, ele impõe suas próprias regras, criando uma sensação de superioridade reproduzida em todos os níveis. Já Norbert Elias, em sua teoria do “processo civilizador”, defendeu que o esporte deveria funcionar como dispositivo de contenção da violência. Mas, quando o jogo simbólico da rivalidade se converte em culto à supremacia, o mecanismo se inverte: o futebol passa a legitimar agressões e assassinatos, em vez de contê-los. Nesse sentido, a cultura de torcer deixa de ser identidade coletiva saudável e se torna instrumento de violência. Quando a identidade rubro-negra é constantemente reforçada pela narrativa de que é “a maior”, “a mais importante” ou “a intocável”, ela abre espaço para que a agressão seja vista como parte legítima dessa afirmação identitária.

RESPONSABILIDADE INSTITUCIONAL E NECESSIDADE DE MUDANÇA

O Flamengo, como instituição, não pode se eximir da responsabilidade. A recusa em assumir plenamente a indenização às famílias do Ninho do Urubu, o silêncio diante de discursos que celebram “roubo” em arbitragens e a negligência em relação à violência simbólica de sua torcida alimentam o ciclo de impunidade. A mídia, por sua vez, precisa urgentemente rever seus critérios. Continuar a exaltar o Flamengo como “supremo”, “intocável”, “acima de tudo e de todos”, “acima do bem e do mal”, sem contraponto crítico, não é jornalismo: é legitimação de privilégios que se refletem em comportamentos criminosos nas ruas.

CONCLUSÃO

O futebol é o principal esporte do Brasil e exerce enorme impacto na formação de identidades coletivas. Quando um clube é colocado “acima do bem e do mal”, como ocorre com o Flamengo, as consequências ultrapassam o campo e invadem as ruas. O resultado são episódios como os que vimos em setembro: torcedores mortos, trabalhadores agredidos, famílias destruídas.

É importante, no entanto, fazer uma ressalva fundamental: não se trata de afirmar que todos os torcedores do Flamengo são violentos. Isso seria uma generalização injusta e incorreta. A imensa maioria da torcida rubro-negra não pratica atos criminosos. Contudo, mesmo entre aqueles que não recorrem à violência física, observa-se com frequência um comportamento marcado pela arrogância, pela soberba e por discursos discriminatórios dirigidos a torcedores de outros clubes. A “brincadeira”, a “zoação”, muitas vezes ultrapassam o limite do respeito e assumem caráter de humilhação, exclusão e intolerância simbólica.

Assim, temos dois níveis de problema: de um lado, a minoria violenta, que transforma a rivalidade em agressão; de outro, uma maioria não violenta, mas que adere a um padrão cultural de superioridade e desprezo em relação aos demais. Ambas as posturas são alimentadas pelo mesmo discurso de supremacia simbólica que a mídia e as instituições constroem em torno do Flamengo.

Enquanto o clube continuar a ser tratado como entidade suprema e a imprensa seguir alimentando esse mito sem contraponto crítico, o futebol permanecerá prisioneiro de uma lógica perversa, em que a paixão serve de justificativa tanto para a violência física quanto para a arrogância simbólica. Romper esse ciclo é mais do que um desafio esportivo: é uma necessidade social urgente.

Tiago Scaffo

GIGANTE POR NATUREZA, ETERNO POR PAIXÃO! – Vasco x Botafogo – Copa do Brasil 2025

GIGANTE POR NATUREZA, ETERNO POR PAIXÃO!

Na noite de quinta-feira, 11 de setembro, no Estádio Olímpico Nilton Santos, o Vasco escreveu mais uma página de sua história de resistência. Empatou em 1 a 1 contra o Botafogo no tempo normal e, nos pênaltis, venceu por 5 a 3, garantindo a classificação à semifinal da Copa do Brasil. Um feito que muitos não acreditavam ser possível, mas que mostrou, mais uma vez, a essência vascaína: lutar contra tudo e contra todos, surpreender quando parece impossível e renascer quando tentam nos enterrar.

Esse Vasco que vimos em campo é o retrato fiel de um clube que, mesmo em meio a crises financeiras, disputas políticas e tantos percalços nos últimos anos, nunca deixou de carregar consigo a chama da grandeza. Porque o Vasco não é pequeno, nunca foi e jamais será. O Vasco não nasceu para discursos de coitadismo, não nasceu para se colocar abaixo de ninguém. O Vasco é gigante, tem a história mais linda do futebol mundial e precisa sempre se impor como tal.

A áurea vascaína é feita de glórias, de momentos épicos, de uma trajetória que rompe fronteiras e inspira gerações. Mas, acima de tudo, ela é feita de seu torcedor. O vascaíno é diferente. Enquanto muitos clubes fazem sua torcida, no caso do Vasco é a torcida que faz o clube. É ela que sustenta, que dá vida, que empurra mesmo nas horas mais duras. É essa massa apaixonada que transforma o impossível em realidade, que abraça todas as causas do clube com amor incondicional.

Ser Vasco é viver uma filosofia, não apenas carregar uma bandeira. É sentir a alma de um clube que resiste, que cai e se levanta, que tropeça mas nunca desiste, porque tem milhões de corações pulsando ao seu lado. O Vasco é imortal porque seu torcedor é imortal. O Vasco é eterno porque o amor do vascaíno é eterno.

E é por isso que, diante de cada vitória como essa, diante de cada classificação improvável, somos lembrados de que acreditar no Vasco nunca é em vão. Porque o Vasco sempre pode ir além, sempre pode surpreender, sempre pode ressurgir maior do que antes. O Vasco é um colosso mundial, um clube que carrega dentro de si uma verdade simples e poderosa: a vascainidade vive. E enquanto houver vascaínos, o Vasco sempre renascerá.

O Vasco não é só um clube, o Vasco é alma, é paixão, é vida. O Vasco é o coração de milhões que batem juntos e gritam em uníssono: contra tudo e contra todos, nós somos Vasco, e jamais deixaremos de acreditar!

Expulsão de Léo Jardim no Beira Rio exige reação do Vasco

No domingo, 27 de julho, no estádio Beira Rio, em Porto Alegre, o Vasco empatou por 1 a 1 com o Internacional-RS em uma partida marcada por um episódio controverso, que alterou o rumo do jogo: a expulsão do goleiro Léo Jardim aos 40 minutos do segundo tempo. A decisão tomada pelo árbitro Flávio Rodrigues de Souza gerou revolta no elenco vascaíno e colocou em xeque os critérios adotados pela arbitragem brasileira em situações semelhantes.

Léo Jardim, até então um dos grandes nomes da partida, fazia uma atuação decisiva, com defesas fundamentais, que sustentavam a vantagem vascaína no placar. No lance em questão, o goleiro permaneceu sentado próximo à trave, reclamando de dores nas costas. O árbitro interpretou o episódio como cera e, sem qualquer advertência verbal ou avaliação médica, aplicou o segundo cartão amarelo e o expulsou de campo. A partir dali, o Vasco, em inferioridade técnica com um goleiro reserva sem ritmo, sofreu o empate no final do segundo tempo.

Não se trata de dizer que o empate aconteceu exclusivamente por causa da expulsão, nem que o Internacional não demonstrava sinais de reação. O time gaúcho pressionava, sim, mas é inegável que a decisão de expulsar Léo Jardim interferiu diretamente na dinâmica do jogo e no desfecho final da partida. A arbitragem rompeu com o equilíbrio natural do confronto e empurrou o Vasco para uma situação de desvantagem em um momento crítico, prejudicando não apenas o desempenho, mas o próprio planejamento da equipe para os minutos finais.

A questão central não é se a punição encontra respaldo literal na regra, mas sim como e quando essa regra é aplicada. O que se viu no Beira Rio foi uma decisão isolada, extrema e fora do padrão adotado pela arbitragem em situações idênticas. Léo Jardim apresentava dores nas costas e foi punido sem qualquer parcimônia ou critério contextual. Isso levanta uma dúvida considerável: qual é o parâmetro utilizado pelos árbitros brasileiros para distinguir cera de lesão? Porque se a lógica for a vista ontem, qualquer jogador lesionado corre o risco de ser expulso apenas por não conseguir se levantar com a rapidez que o árbitro exige. O visto no Beira Rio não foi apenas um exagero, mas uma aplicação excêntrica da regra, que não encontra respaldo no padrão de conduta adotado em outras partidas. É justamente essa excepcionalidade que torna a decisão inaceitável.

Nesse contexto, vale lembrar que esse não é um caso isolado. Em julho de 2024, Flávio Rodrigues de Souza expulsou o goleiro Gustavo, do Criciúma, aos 16 minutos do segundo tempo em duelo contra o Bahia no Estádio Heriberto Hülse, quando o Criciúma vencia por 2 a 1. Após a expulsão, o Bahia conseguiu o empate em 2 a 2, mostrando que decisões semelhantes já influenciaram o resultado final de outra partida. Essa recorrência evidencia que o critério usado pelo árbitro tem histórico de interferência direta na dinâmica dos jogos.

Após o fim do confronto, o técnico Fernando Diniz foi direto, afirmou que o árbitro “não é médico” e tomou uma decisão injustificável sem avaliar minimamente a condição do jogador. Disse ainda jamais ter visto algo parecido em sua carreira. Vegetti, por sua vez, disparou que “a gente foi roubado”. As declarações refletem o sentimento generalizado de indignação dentro do clube. O que aconteceu no Beira Rio não foi um erro trivial, foi um episódio simbólico de como a arbitragem brasileira pode agir de maneira isolada, insensata e prejudicial, sem qualquer consequência.

A diretoria do Vasco deve agir com firmeza imediata. É obrigação institucional do clube exigir explicações públicas pelo acontecido, acionar formalmente a Comissão de Arbitragem, a CBF e tornar claro que não teve cabimento a decisão tomada pela arbitragem. É necessário cobrar que critérios quaisquer partam da premissa do bom senso. A regra oportuniza a que acréscimos sejam dados, conforme o tempo de paralisação da partida.

O que se viu no Beira Rio foi grave e precisa ser combatido com rigor. Se a diretoria do Vasco não se impuser agora, estará autorizando que episódios como esse se repitam, enfraquecendo o clube dentro e fora de campo.

Tiago Scaffo.

Vasco é atropelado em campo e desmantelado fora dele: Clube vive colapso total!

O Vasco da Gama atravessa um dos momentos mais vexatórios e dolorosos de sua história recente. A derrota por 4 x 0 para o Independiente Del Valle, em Quito, escancarou um time desorganizado, entregue e incapaz de oferecer qualquer resistência mínima a um adversário tecnicamente superior, mas nem de longe intransponível. O que se viu em campo foi um massacre, posse de bola de 80% para o time equatoriano, uma estatística que não apenas expõe o domínio, mas revela o completo colapso tático e anímico do clube cruzmaltino. Um time morto, sem alma, sem estratégia e, pior ainda, sem vergonha.

O vexame só não foi maior porque o goleiro Léo Jardim defendeu um pênalti nos acréscimos do segundo tempo, evitando que o placar se transformasse em um 5 x 0 mais contundente ainda. O Vasco foi completamente dominado do início ao fim e ainda teve o lateral Lucas Piton expulso antes dos 15 minutos da etapa inicial, tornando a tragédia ainda mais previsível e inevitável.

Esse desastre internacional veio logo após outra atuação medíocre no clássico contra o Botafogo, quando o Vasco perdeu por 2 x 0 no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, sem esboçar grande competitividade. Foi um jogo em que o rival sequer precisou acelerar o ritmo. O Vasco, apático, desinteressado e desconectado da realidade, parecia disputar um amistoso de pré-temporada, quando na verdade briga desesperadamente para não afundar ainda mais na crise que já se arrasta há quase oito anos.

A torcida, como sempre, é a única que ainda resiste. Mas resiste cansada, exaurida, ferida. Desde a gestão de Alexandre Campello, passando pela gestão Salgado e agora com Pedrinho à frente, o que se assiste é um roteiro contínuo de desmandos, promessas vazias, ausência de planejamento e uma gestão que flerta com o amadorismo em todos os sentidos. Pedrinho, que chegou à presidência sob um tsunami de esperança por parte da torcida, transformou-se em uma das maiores decepções recentes. Sua gestão é marcada por omissão, falta de pulso, ausência de liderança, comunicação caótica e um absoluto despreparo para gerir uma instituição da grandeza do Club de Regatas Vasco da Gama. O torcedor que sonhou com um Vasco de volta ao protagonismo, hoje vê um clube à deriva, abandonado e entregue a interesses que em nada se conectam com o que representa a camisa cruzmaltina.

O time ficou exatos 30 dias sem disputar uma partida oficial, entre 12 de junho e 12 de julho. Durante esse período, o Vasco retornou aos treinos apenas no dia 23 de junho. Foram quase três semanas para reorganizar o elenco, recuperar o físico e planejar um segundo semestre minimamente decente. O que se viu no retorno aos gramados, porém, foi um time apático, pesado, desorganizado, sem competitividade e completamente perdido em campo. A tal “intertemporada” promissora foi apenas mais uma ilusão vendida à torcida, que outra vez acreditou, e novamente decepcionou-se.

Para piorar, a diretoria trouxe apenas um reforço na janela, até aqui, o volante Thiago Mendes, que chega longe do auge físico e técnico. O novo diretor executivo de futebol, Admar Lopes, até agora nada entregou. Um profissional cercado de dúvidas por onde passou (na função que atualmente exerce) terá de se mexer rápido para apresentar nomes e resultados. A política de contratações no Vasco tem parecido desorientada, insensata, normalmente desconectada da realidade esportiva do clube.

E no centro de todo esse colapso está uma farsa institucionalizada chamada SAF. A torcida do Vasco foi enganada de maneira covarde, manipulada por discursos mentirosos que vendiam a Sociedade Anônima do Futebol como a salvação, como a profissionalização, como a fórmula mágica para transformar o clube em potência. Prometeram que o Vasco voltaria ao topo, que teria estrutura, inteligência, competitividade, transparência. O que se viu foi o contrário. A SAF imposta pela 777 Partners foi um dos maiores crimes institucionais cometidos contra o Vasco. Uma empresa sem plano, sem comando, sem compromisso, que tratou o clube como ativo financeiro de baixo custo, e não como instituição esportiva. Jogaram com a paixão do torcedor como se estivessem operando na Bolsa de Valores. Usaram o Vasco, sugaram o que podiam e saíram deixando um rastro de fracasso.

A SAF não profissionalizou o clube, ela blindou a incompetência. Não trouxe transparência, ela reforçou a escuridão. Não atraiu grandes investimentos, ela apenas criou novas formas de escoar dinheiro sem retorno técnico. O torcedor foi manipulado, tratado como consumidor ignorante, alvo fácil para narrativas de PowerPoint e falas ensaiadas. Mentiram, esconderam a verdade, prometeram o impossível e entregaram o caos. A gestão da SAF foi tão desastrosa quanto as gestões associativas de 2018 em diante, e talvez até mais nociva, porque veio com a chancela de seriedade e modernidade, quando na prática era apenas mais um projeto podre, travestido de solução.

O Vasco caminha a passos largos para completar mais um ano sem títulos (o nono ano). Nesse período de vexames sucessivos, rebaixamentos, mautenção na segunda divisão, eliminações precoces, goleadas e escândalos institucionais. São nove anos sendo chacota até de adversários menores. O que era para ser a manutenção de uma reconstrução que se via, com o Vasco classificado à Libertadores, dívida reduzida no triênio 2015/2017, superioridade no confronto direto frente aos rivais, conquistas no triênio de mais títulos e/ou taças oficiais que todos os outrso grandes do Rio (juntos), recuperação patriminial e da base, virou terra arrasada. O clube esteve e está completamente desgovernado, arrastado por interesses menores dirigido por pseudos profissionais e usado como moeda política por gente que nem sequer entende o significado, em gerindo, de carregar o peso dessa camisa.

Nos últimos sete anos e meio o Vasco foi e é tocado por pessoas que não compreendem a responsabilidade de conduzir uma instituição centenária, popular e histórica. O clube virou vitrine para vaidades, trampolim para carreiristas e laboratório de experiências fracassadas. A marca Vasco tem sido explorada como se fosse uma laranja espremida até o bagaço. Não há transparência, não há comprometimento, não há respeito à história do clube.

O torcedor, esse sim, segue firme, mas completamente perdido. Apegado à paixão, já não sabe mais no que acreditar. Mentiras repetidas se tornam verdades em um ambiente de desespero emocional. O amor pelo clube virou uma prisão afetiva. E mesmo cansado, machucado e decepcionado, o vascaíno segue ali, mas não sabe como chegar onde deseja e repete os desejos daqueles que lhe venderam soluções e saídas únicas, tamponando sua própria incapacidade ou vontade de achar caminhos outros, porque dá muito trabalho.

O Vasco precisa de uma ruptura imediata com esse ciclo de incompetência. Precisa de gente séria, capacitada e comprometida com a reconstrução do clube. Chega de omissão, de promessas vazias, de vexames intermitentes. Acordar é urgente, porque o Vasco, gigante por natureza, posta-se há 90 meses do tamanho de seus dirigentes. E isso resume sucessivos fracassos e desculpas.

Tiago Scaffo

A entrevista de Alan Belaciano: Entre a falta de integridade e o triunfalismo injustificável

A entrevista concedida por Alan Belaciano, presidente da Assembleia Geral do Club de Regatas Vasco da Gama (CRVG), ao canal Vasco TV, foi um retrato cristalino da confusão ética, administrativa e política que marca as três últimas gestões do clube, e, principalmente, a atual. Disfarçada de prestação de contas e de suposto esclarecimento, a fala de Belaciano foi, na prática, uma peça de propaganda que expõe ainda mais as contradições e a falta de integridade institucional na condução do CRVG.

Logo no início, causa espanto o tom quase celebratório adotado ao abordar a entrada do Vasco em recuperação judicial (RJ). Belaciano chega a classificar como algo praticamente inédito e positivo o fato de o clube ser o primeiro grande do Brasil a entrar nesse regime jurídico. Mais do que uma visão ingênua, essa narrativa escancara a absoluta desconexão com a realidade: a recuperação judicial não é símbolo de grandeza, mas sim de insolvência. É um atestado público de que a instituição, através dessa gestão, não consegue honrar seus compromissos nos moldes previamente assumidos, e precisa recorrer a mecanismos legais para postergar, reduzir, ou até anular parte de suas obrigações financeiras.

O próprio Belaciano expõe, com naturalidade constrangedora, a atuação direta junto a advogados de credores. Ainda que tente vestir essa atuação como parte do processo de composição dos acordos, o fato é que a condução dessas tratativas nessas condições coloca em risco a integridade do próprio processo de recuperação judicial do Vasco. Ao invés de assegurar uma condução plenamente técnica, transparente e independente, o clube acaba se expondo a questionamentos sobre a real imparcialidade das negociações e a equidade no tratamento dos credores, ferindo princípios fundamentais de proteção ao seu patrimônio e à sua credibilidade institucional. Mais revelador ainda é o próprio conjunto de negociações conduzidas durante o processo, especialmente no âmbito da classe trabalhista, em que, sob sua condução, mais de 80% dos acordos foram firmados anteriormente sem aplicação dos deságios típicos de uma RJ, apenas com alongamento de prazos. Ou seja, o Vasco demonstrou ser plenamente capaz de renegociar suas obrigações trabalhistas sem necessidade de recorrer à proteção judicial, o que desmente a suposta inevitabilidade da recuperação judicial. Se tais acordos eram possíveis dentro de uma via negocial ordinária, fica a inevitável indagação: por que, então, o clube precisou ser empurrado para o regime de RJ? E, mais grave: agora, consolidado o plano, qualquer inadimplemento futuro poderá conduzir o Vasco à falência, encerrando de forma dramática um ciclo que poderia ter sido evitado.

Mais preocupante ainda é a narrativa de que desde 2004 o Vasco apenas “enxugava gelo”, pagando mais juros do que amortizações de dívida. Trata-se de uma incongruência histórica que ignora, por exemplo, o período entre 2015 e 2017, quando o clube, mesmo diante de sérias dificuldades, conseguiu efetivamente reduzir sua dívida global, fato confirmado pelo balanço de 2017, feito pela gestão posterior, em 2018. Ou seja, houve sim capacidade de diminuição da dívida global fora do contexto de recuperação judicial, ao contrário do que tenta pintar o discurso oficial atual.

A suposta imparcialidade nas negociações com os credores, tão destacada por Belaciano, também se mostra profundamente questionável. Um exemplo gritante é o caso do atual diretor técnico do futebol, Felipe Loureiro, ex-jogador do clube. Até hoje não há uma explicação clara e objetiva sobre como se deu a quitação ou a retirada de sua dívida do processo. Informações desencontradas indicam que teria ocorrido uma execução judicial em 2022, mas a forma como o acordo foi estabelecido, os valores envolvidos e se houve ou não tratamento diferenciado permanecem envoltos em incertezas. Não se sabe, até o momento, se a negociação atendeu aos critérios éticos esperados de quem deveria zelar pelo tratamento equitativo a todos os credores, ou se configurou uma situação díspar disso. Esse episódio, ainda sem os devidos esclarecimentos, continua pairando como mais um ponto de interrogação das mais diversas condutas administrativas da atual gestão.

A ausência de responsabilidade da atual gestão não se restringe apenas à condução da RJ. É importante pontuar que, até maio de 2024, o futebol profissional estava sob controle da Vasco SAF, então administrada pela 777 Partners. A partir daquele mês, com a concessão de uma liminar pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, processo este ainda em andamento e não definitivamente concluído, o CRVG reassumiu o controle integral das ações da Vasco SAF. A partir dessa retomada, a atual gestão passou a acumular novas dívidas expressivas, especialmente entre maio e dezembro de 2024, período em que deixou de honrar compromissos financeiros com vários credores, descumprindo o Princípio da Continuidade Administrativa. Esse acúmulo recente de obrigações, somado aos passivos anteriores, foi aparentemente preparado para ser arremessado integralmente dentro do processo de recuperação judicial. Ou seja, diferentemente da narrativa oficial, não se tratou de um passivo herdado exclusivamente de administrações anteriores, mas de um cenário que sugere uma estratégia deliberada, ao menos em aparência, construída já sob o comando atual, com a intenção prévia, e posteriormente consolidada, de empurrar toda essa massa de dívidas para dentro da RJ e, assim, tentar reestruturar o endividamento via deságios e prazos alongados. É nesse contexto que a suposta “redução” de dívida anunciada não passa de um movimento artificial, fruto de recálculos judiciais, e não de uma efetiva política de responsabilidade financeira e equilíbrio administrativo. O Vasco se coloca numa condição de instituição que não paga o que deve, e depois tenta renegociar suas dívidas com acordos de descontos. Quem sai perdendo, além da instituição, é o credor.

A entrevista de Alan Belaciano a Vasco TV não apenas falha em oferecer esclarecimentos verdadeiros à torcida e aos sócios, como ainda evidencia o grau de descompromisso com a integridade, a responsabilidade e a transparência que deveriam pautar a condução do Club de Regatas Vasco da Gama. Uma gestão que celebra a insolvência como feito administrativo e usa a crise como trampolim político, está muito distante daquilo que a instituição, e sua imensa torcida, merecem.

Tiago Scaffo

O Brasil coletivista e a ameaça à Identidade Cultural do Futebol com as SAFs

O Brasil é um país de dimensões continentais, marcado por uma diversidade de tradições que, apesar da distância geográfica e das diferenças regionais, compartilham um elemento central: a cultura coletivista. Ao contrário de sociedades individualistas, onde o sucesso pessoal se sobrepõe ao interesse do grupo, a cultura brasileira foi moldada pela força das comunidades, que constroem e mantêm vivas suas manifestações culturais por meio da união, da oralidade, da devoção e do trabalho conjunto.

As escolas de samba são um exemplo claro dessa força coletiva. Apesar de receberem investimentos públicos e privados, é o envolvimento direto das comunidades que dá vida ao espetáculo. Os desfiles são frutos de meses de trabalho de moradores, costureiras, soldadores, músicos e artistas locais, que se unem em prol de um projeto comum, mesmo que cada um tenha um objetivo particular, seja ele vencer, celebrar ou simplesmente participar. O mesmo vale para o Festival de Parintins, no Amazonas, onde a rivalidade entre os bois Garantido e Caprichoso mobiliza toda a cidade em uma disputa que é, antes de tudo, um espetáculo de pertencimento cultural. São eventos populares que se constroem com modéstia, mas carregam imenso valor simbólico.

Festas religiosas como o Círio de Nazaré, no Pará, e as romarias a Aparecida são outros exemplos da alma coletiva brasileira. Esses eventos mobilizam milhões de pessoas em atos de fé e resistência cultural, que não dependem de grandes patrocínios, mas da crença comum e da tradição repassada por gerações. O crescimento das comunidades evangélicas, muitas vezes sem apoio financeiro governamental, e a preservação de rituais das religiões de matriz africana, por meio da oralidade, também revelam a força de um povo que se une para manter sua identidade viva.

Nesse cenário, o futebol não é apenas um esporte. No Brasil, ele é uma extensão da cultura, da afetividade e da história de cada indivíduo. É a mais poderosa expressão popular do país. Por isso, somos conhecidos mundialmente como “Brasil, o país do futebol”. Diferente de outros lugares do mundo, onde o futebol é frequentemente visto como produto, aqui ele ainda é carregado de paixão, de lembranças afetivas e de identidade familiar. Os títulos desempenham papel fundamental nesse processo, pois ajudam a construir a memória coletiva do torcedor. Eles são pontos de referência emocionais, que marcam épocas, consolidam ídolos e reforçam a ligação afetiva entre o clube e a sua torcida. O torcedor brasileiro cria laços com o seu clube por tradição, pela camisa que o avô vestia, pelo hino que o pai cantava, pelo estádio que marcou um momento de infância. A relação do brasileiro com o futebol é moldada por afetos transmitidos entre gerações, por gestos simples e simbólicos que constroem uma identidade comum. O brasileiro torce por amor, não por lucro. O futebol, no Brasil, é profundamente emocional e comunitário.

Nossa história mostra isso com clareza. Em 1970, o tricampeonato mundial paralisou o país em uma explosão de alegria que marcou gerações. Em 1994, o tetracampeonato arrancou lágrimas de milhões, após 24 anos de espera, simbolizando não apenas uma conquista esportiva, mas um reencontro emocional com a identidade nacional. Já em 2002, o pentacampeonato fez com que toda a nação acordasse de madrugada, acompanhando os jogos disputados na Coreia do Sul e no Japão, movida pelo amor à seleção e à camisa amarela, que representa mais que futebol, representa o Brasil inteiro. Nenhum outro país viveu seus títulos mundiais com tamanha intensidade popular e coletiva.

Entretanto, a criação das SAFs, Sociedades Anônimas do Futebol, representa uma ruptura com esse modelo cultural. Ao transformar os clubes em empresas, com foco técnico, profissional e de alta performance, sob a gestão de investidores, muitas vezes estrangeiros, há um deslocamento da paixão para o consumo. O torcedor deixa de ser parte da construção do clube para se tornar consumidor de um produto, e produtos precisam dar retorno. Se o time não entrega resultados, ele deixa de ser consumido. A lógica da paixão dá lugar à lógica do desempenho.

Essa visão empresarial do futebol se contrapõe frontalmente à identidade cultural coletiva e democrática do povo brasileiro. Ao introduzir um modelo de gestão que exclui o torcedor do processo decisório e retira a alma afetiva do clube, corre-se o risco de esvaziar a relação entre clube e torcida. A memória, a história, os símbolos, os vínculos familiares, tudo isso é colocado em segundo plano diante do balanço financeiro e das metas de rendimento.

A criação das SAFs, portanto, contraria a essência cultural do Brasil, que enxerga o futebol como tradição familiar, laço afetivo e manifestação coletiva, e não como mercadoria. Quando se tem o futebol como paixão, cria-se um elo por identidade, por raízes, por aquilo que conecta você à sua família, à sua história, ao seu bairro. O brasileiro é passional, e isso faz parte da nossa riqueza cultural. Quando o futebol se torna apenas um produto a ser consumido, ele passa a exigir resultado constante. E, quando esse resultado não vem, o torcedor-consumidor simplesmente se afasta.

O perigo das SAFs não está apenas na profissionalização do futebol, algo necessário e bem-vindo quando equilibrado com a tradição, mas na substituição de uma paixão nacional por um produto globalizado. Quando o futebol vira um produto, ele perde sua raiz, seu território, seu povo. E o povo brasileiro, passional como é, não consome o que não ama.

Em um país onde o carnaval é feito por comunidades, onde festas religiosas arrastam milhões, onde o futebol para a nação por amor à camisa, é inaceitável que o coração do torcedor seja tratado como estatística de engajamento. O futebol brasileiro precisa evoluir, sim, mas sem abandonar sua essência coletiva, afetiva e popular. Sem isso, deixaremos de ser o país do futebol, para sermos apenas mais um mercado entre tantos outros.

Tiago Scaffo.

Da promessa de Grandeza ao Colapso: A realidade da SAF e o abismo financeiro do Vasco

O Club de Regatas Vasco da Gama atravessa uma grave crise financeira, que desde 2018 afunda o clube em dívidas crescentes nas gestões que se sucederam ao longo dos últimos sete anos. A promessa de reorganização administrativa e retorno à competitividade deu lugar à uma espiral de endividamento, instabilidade e descrédito. Para piorar, hoje o clube se encontra em seu pior momento institucional no século XXI, sem comando claro, sem plano estruturado, com oito anos e tanto sem títulos e pródigo em decisões simplistas, tomadas sem a devida responsabilidade ou de improviso.

A tentativa de virar a chave veio em 2022, com a criação da SAF e a venda de 70% das ações dela para a empresa norte-americana 777 Partners. À época, prometeu-se transformar o Vasco em um gigante da América Latina e do mundo. O resultado foi o oposto. A gestão da 777 não apenas fracassou em reorganizar o clube, como aprofundou os problemas financeiros. Ao fim da sua administração, a dívida do clube girava em torno de R$ 1,2 bilhão englobando passivos fiscais, trabalhistas, bancários, cíveis e desportivos.

Esse valor representa um aumento de aproximadamente R$ 465 milhões em relação ao que o clube havia acumulado ao longo de 124 anos de história, quando a dívida total girava em torno de R$ 735 milhões (2022). Ou seja, em apenas dois anos sob gestão da SAF, a dívida cresceu mais de 63% em relação ao passivo histórico do clube, um ritmo de endividamento inédito e alarmante. O que se vendeu como um novo modelo de gestão eficiente e moderno se traduziu, na prática, em uma administração que ampliou significativamente o endividamento, sem oferecer resultados esportivos ou avanços institucionais concretos.

Após a saída da 777, concedida através de uma liminar expedida pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, a administração da SAF retornou ao controle do clube associativo, sob a presidência de Pedrinho. No entanto, a crise não apenas persistiu, como se agravou. Sem uma reestruturação de despesas, sem acordos com credores e sem diretrizes claras de austeridade, a dívida aumentou em mais R$ 200 milhões apenas entre maio e dezembro de 2024. Esse crescimento representa aproximadamente 27% do valor que havia sido acumulado em 124 anos de associativo, e equivale a 40% do que a SAF elevou em dois anos, tudo isso em apenas sete meses. A escalada do passivo, sem qualquer contrapartida esportiva ou financeira, revela um cenário de gestão igualmente desorganizada e ineficiente, mesmo após a retomada do controle pelo clube.

Diante desse quadro, a atual gestão optou por recorrer à Recuperação Judicial (antiga Concordata), uma medida legal prevista para empresas em grave crise, que visa a reestruturar dívidas com a supervisão do Judiciário. Apesar de prevista em lei, a decisão foi vista com desconfiança por grande parte da torcida, por analistas do setor e por figuras proeminentes dentro do clube. Isso porque o uso da Recuperação Judicial, ainda que proteja o clube de ações de cobrança no Brasil, traz consigo uma série de estigmas e efeitos colaterais institucionais.

O grupo político Casaca, tradicional e combativo, posicionou-se de forma veemente contra a medida, mostrando ter a atual administração abdicado de buscar alternativas, como acordos ou parcelamentos que poderiam mitigar o impacto das dívidas. Ao lançar praticamente todo o passivo na Recuperação Judicial, sem demonstrar esforço prévio de negociação para não entrar nela, comprovando tratar-se de uma medida apressada e irresponsável, que empurra o problema para o futuro, sem resolvê-lo no presente.

Mais grave ainda é o cenário internacional. O Vasco corre o risco real de sofrer sanções da FIFA, especialmente um transfer ban, ou seja, a proibição de registrar novos jogadores. A punição se deve ao não pagamento de dívidas com clubes do exterior, o que fere diretamente as normas da entidade máxima do futebol.

Sobre o posicionamento da FIFA em casos como esse, é importante esclarecer: como regra, a entidade costuma reconsiderar sanções quando o clube está em Recuperação Judicial. Ela reconhece as dificuldades típicas desse tipo de processo e, normalmente, entende que, dentro desse contexto, o clube não é obrigado a cumprir os acordos firmados da forma originalmente imposta, mas sim conforme a legislação local que rege a Recuperação Judicial.

No entanto, a FIFA não está obrigada a aceitar essa reconsideração. Ela avalia caso a caso e pode interpretar que o clube está tentando se valer da Recuperação Judicial sem real necessidade, ou com condutas inadequadas. A entidade pode, portanto, optar por não suspender a punição com base em sua própria leitura do cenário, independentemente da legislação nacional.

Ou seja, ainda que a recuperação judicial possa ser reconhecida pela FIFA, não há garantia de que isso ocorrerá automaticamente. Se ela entender que o Vasco não está agindo com transparência, ou que a medida não é justificada, o transfer ban poderá ser mantido até janeiro de 2027. Isso seria muito prejudicial ao clube, que precisa urgentemente se reforçar para ser competitivo e tentar crescer esportivamente.

O prejuízo institucional vai além do campo. A perda de credibilidade afasta potenciais investidores, enfraquece relações com patrocinadores e deteriora o prestígio de uma marca centenária. Em vez de um recomeço sólido com a SAF, o Vasco se vê hoje novamente no centro de uma crise, sem comando claro, sem plano de reestruturação e com decisões sendo tomadas sob pressão e improviso.

A Recuperação Judicial, portanto, não é um recomeço. É o reflexo do fracasso de uma ideia de gestão vendida como solução milagrosa e de uma parceria que agravou, em vez de resolver, os problemas do clube. Se não houver uma guinada institucional imediata, com comando, responsabilidade e comprometimento, o Vasco corre o risco de afundar ainda mais no ciclo de instabilidade que o assombra nos últimos sete anos. O tempo para reavivar o clube ultrapassa os limites da razoabilidade. Como reflexo de tudo isso, em campo o Vasco não conquista um campeonato há quase nove anos.

Tiago Scaffo.