O mês de setembro de 2025 expôs, de forma dolorosa, a face mais sombria da relação entre futebol, violência e construção simbólica de poder. Em três episódios distintos, todos envolvendo torcedores do Flamengo, vidas foram ceifadas, trabalhadores tiveram seu direito à dignidade violado e a rivalidade esportiva extrapolou para o campo do crime. O primeiro caso ocorreu em 11 de setembro, próximo à estação de trem de Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, horas antes da partida entre Botafogo e Vasco. Mesmo sem que o Flamengo estivesse em campo, integrantes de uma torcida organizada do Flamengo protagonizaram cenas de barbárie, efetuando disparos de arma de fogo contra vascaínos. O ataque deixou feridos e culminou na morte de um torcedor cruzmaltino.
Os outros dois episódios ocorreram em 21 de setembro. No Rio de Janeiro, uma vendedora ambulante, trabalhadora e vascaína, foi brutalmente agredida por torcedores rubro-negros nas imediações da partida no Maracanã. Além da violência física, perdeu toda sua mercadoria, seu sustento diário, e viu comprometida também sua atividade social de apoio a cães abandonados. No mesmo dia, em Brasília, outro torcedor vascaíno foi esfaqueado até a morte, também por flamenguistas, em mais um ato de intolerância que transforma a rivalidade esportiva em sentença de morte. Esses episódios, embora distintos, fazem parte de um mesmo processo: a violência simbólica e estrutural associada ao futebol brasileiro, em especial quando se trata do Clube de Regatas do Flamengo.
A CONSTRUÇÃO DO “MAIS QUERIDO” E O DISCURSO DA SUPREMACIA
A imagem do Flamengo como clube “supremo”, “maior”, “inquestionável”, “acima do bem e do mal” não é um fenômeno espontâneo. Ela foi construída historicamente por narrativas institucionais e midiáticas. A alcunha de “O Mais Querido”, por exemplo, surgiu em um concurso de popularidade em 1927, mas sempre esteve cercada de disputas políticas e comerciais. Décadas depois, tornou-se até objeto de briga judicial entre o clube e a TV Globo pelo direito de registro da marca. Isso mostra que não se trata apenas de afeto popular, mas de poder simbólico e mercadológico.
O episódio de 1927, conhecido como a disputa da Taça Salutaris, é revelador desse processo. Na ocasião, vascaínos e flamenguistas mobilizaram-se para decidir, por meio de votação popular, quem seria o “Mais Querido”. Os portugueses, majoritariamente vascaínos e com maior poder aquisitivo por serem comerciantes, consumiram em massa a água mineral promotora da votação e juntaram milhares de rótulos para o clube de São Januário. Diante disso, flamenguistas organizaram uma fraude: disfarçados de portugueses torcedores vascaínos, recolheram votos que seriam destinados ao Vasco e os jogaram em privadas e até no poço de um elevador, inutilizando-os. Assim, o Flamengo se sagrou “O Mais Querido” não pela legitimidade popular, mas por meio de trapaça. Essa origem é simbólica: a alcunha máxima do clube nasce de um ato de fraude, que foi naturalizado ao longo do tempo e até exaltado como parte da identidade rubro-negra. O recado que fica para torcedores e para a sociedade é perigoso: mesmo na trapaça, mesmo no “roubo”, o Flamengo segue sendo celebrado como vencedor, consolidando a ideia de que, se for a favor do clube, tudo é permitido.
Somado a isso, declarações públicas de jogadores e dirigentes, como a célebre frase do goleiro Felipe, em 2014, de que “título roubado é mais gostoso” após um gol irregular decisivo, normalizam a percepção de que irregularidades, quando em benefício do Flamengo, são aceitáveis ou até desejáveis. Esse tipo de discurso, amplificado sem a devida crítica pela imprensa, reforça o imaginário de que o clube estaria acima da crítica, da lei e até da moral esportiva. É justamente nesse ponto que o tratamento diferenciado recebido pelo Flamengo começa a se converter em comportamento social. Quando a mídia e parte da opinião pública insistem em tratá-lo como intocável, como entidade acima do bem e do mal, seus torcedores absorvem a mensagem de que também podem se colocar nesse patamar. Cria-se um sentimento de impunidade simbólica: se o clube é constantemente favorecido, se seus erros são relativizados, se escândalos graves são tratados com complacência, por que o torcedor deveria se ver limitado pelas normas sociais? Essa percepção de privilégio se transforma em prática concreta, legitimando a violência.
O resultado é revelador: desde a fraude da Taça Salutaris em 1927, que deu origem ao título de “Mais Querido” não pela legitimidade, mas pela trapaça, até a frase do goleiro Felipe, em 2014, de que “título roubado é mais gostoso”, o Flamengo construiu uma narrativa em que o “roubo” ou a irregularidade, quando a seu favor, não apenas é tolerado, mas celebrado como parte da identidade rubro-negra. Esse padrão histórico, amplificado pela mídia sem contraponto crítico, envia uma mensagem direta à sociedade: mesmo na trapaça, o Flamengo é exaltado. Daí nasce um efeito mimético perigoso, se o clube pode ser “o mais querido” fraudando votos, se pode comemorar títulos manchados e ser protegido por narrativas condescendentes, por que o torcedor não poderia também agir como se estivesse acima da lei? É essa naturalização da superioridade e da impunidade simbólica que, convertida em prática social, legitima a violência real: a pedra arremessada, o soco desferido, a facada, o tiro.
O PAPEL DA MÍDIA E A LEGITIMAÇÃO DA VIOLÊNCIA
A mídia esportiva brasileira tem responsabilidade central nesse processo. O Flamengo recebe cobertura desproporcional em relação a outros clubes, com exaltação constante de suas vitórias e minimização de suas falhas. Quando se trata de escândalos, como o envolvimento de jogadores em manipulação de apostas ou a tragédia do Ninho do Urubu, que matou dez jovens atletas em 2019, o tratamento frequentemente é complacente, diluindo responsabilidades. Esse desequilíbrio não é apenas questão de parcialidade jornalística: é construção de narrativa. Ao naturalizar privilégios, ao reforçar a imagem de que o Flamengo é “maior” ou “inquestionável”, a imprensa alimenta um ciclo em que parte da torcida se sente legitimada a agir sem limites. A violência, nesse sentido, não surge do nada; ela é alimentada por anos de discursos que colocam um clube em posição de supremacia dentro do campo esportivo.
A LEITURA SOCIOLÓGICA: CAPITAL SIMBÓLICO E VIOLÊNCIA ESPORTIVA
A sociologia ajuda a compreender esse fenômeno. Maurício Murad, em A violência no futebol (2012), aponta que os confrontos entre torcidas não são apenas eventos esportivos, mas expressões de violência estrutural em uma sociedade marcada por desigualdade e ausência de políticas preventivas. Pierre Bourdieu, ao falar do “campo esportivo”, lembra que os clubes disputam não só títulos, mas também capital simbólico: prestígio, legitimidade, visibilidade. Quando um clube monopoliza esse capital, como o Flamengo faz com o apoio midiático e a retórica de “mais querido”, ele impõe suas próprias regras, criando uma sensação de superioridade reproduzida em todos os níveis. Já Norbert Elias, em sua teoria do “processo civilizador”, defendeu que o esporte deveria funcionar como dispositivo de contenção da violência. Mas, quando o jogo simbólico da rivalidade se converte em culto à supremacia, o mecanismo se inverte: o futebol passa a legitimar agressões e assassinatos, em vez de contê-los. Nesse sentido, a cultura de torcer deixa de ser identidade coletiva saudável e se torna instrumento de violência. Quando a identidade rubro-negra é constantemente reforçada pela narrativa de que é “a maior”, “a mais importante” ou “a intocável”, ela abre espaço para que a agressão seja vista como parte legítima dessa afirmação identitária.
RESPONSABILIDADE INSTITUCIONAL E NECESSIDADE DE MUDANÇA
O Flamengo, como instituição, não pode se eximir da responsabilidade. A recusa em assumir plenamente a indenização às famílias do Ninho do Urubu, o silêncio diante de discursos que celebram “roubo” em arbitragens e a negligência em relação à violência simbólica de sua torcida alimentam o ciclo de impunidade. A mídia, por sua vez, precisa urgentemente rever seus critérios. Continuar a exaltar o Flamengo como “supremo”, “intocável”, “acima de tudo e de todos”, “acima do bem e do mal”, sem contraponto crítico, não é jornalismo: é legitimação de privilégios que se refletem em comportamentos criminosos nas ruas.
CONCLUSÃO
O futebol é o principal esporte do Brasil e exerce enorme impacto na formação de identidades coletivas. Quando um clube é colocado “acima do bem e do mal”, como ocorre com o Flamengo, as consequências ultrapassam o campo e invadem as ruas. O resultado são episódios como os que vimos em setembro: torcedores mortos, trabalhadores agredidos, famílias destruídas.
É importante, no entanto, fazer uma ressalva fundamental: não se trata de afirmar que todos os torcedores do Flamengo são violentos. Isso seria uma generalização injusta e incorreta. A imensa maioria da torcida rubro-negra não pratica atos criminosos. Contudo, mesmo entre aqueles que não recorrem à violência física, observa-se com frequência um comportamento marcado pela arrogância, pela soberba e por discursos discriminatórios dirigidos a torcedores de outros clubes. A “brincadeira”, a “zoação”, muitas vezes ultrapassam o limite do respeito e assumem caráter de humilhação, exclusão e intolerância simbólica.
Assim, temos dois níveis de problema: de um lado, a minoria violenta, que transforma a rivalidade em agressão; de outro, uma maioria não violenta, mas que adere a um padrão cultural de superioridade e desprezo em relação aos demais. Ambas as posturas são alimentadas pelo mesmo discurso de supremacia simbólica que a mídia e as instituições constroem em torno do Flamengo.
Enquanto o clube continuar a ser tratado como entidade suprema e a imprensa seguir alimentando esse mito sem contraponto crítico, o futebol permanecerá prisioneiro de uma lógica perversa, em que a paixão serve de justificativa tanto para a violência física quanto para a arrogância simbólica. Romper esse ciclo é mais do que um desafio esportivo: é uma necessidade social urgente.
Tiago Scaffo