Arquivo da categoria: Tiago Scaffo

No calor de São Januário, Vasco inicia nova fase com Diniz

Em uma noite de reencontro e alívio para a torcida cruzmaltina, o Vasco da Gama venceu o Fortaleza por 3 a 0, em São Januário, pela 9ª rodada do Campeonato Brasileiro. A partida marcou o primeiro jogo de Fernando Diniz diante da torcida desde sua volta ao comando do time, após sua primeira passagem em 2021. E, apesar de sua chegada não ter empolgado de imediato os torcedores, ela representou uma esperança de dias melhores, especialmente diante do retrospecto positivo que o treinador teve em seus últimos trabalhos.

A falta de empolgação inicial tem explicação: o Vasco vinha de um jejum de nove partidas sem vencer, sob o comando de Fernando Carille, técnico que nunca caiu nas graças da arquibancada. Após sua saída, o diretor técnico Filipe Loureiro assumiu interinamente por quatro jogos, com um desempenho ainda mais pífio e preocupante, um empate e três derrotas, sendo uma delas o vexame diante do Puerto Cabello. Era evidente que o time sentia a ausência de comando técnico efetivo.

Na estreia de Diniz, o Vasco perdeu para o Lanús, mas já apresentava uma tentativa de jogo mais organizado em campo. Agora, no entanto, a postura que se viu contra o Fortaleza demonstra uma evolução da equipe em relação aos jogos anteriores e também em relação à partida contra o Lanús, na terça-feira.

Além do desempenho técnico, um aspecto que chama a atenção é o envolvimento direto do treinador durante os 90 minutos de partida. Fernando Diniz tem como característica manter comunicação constante com os jogadores, orientando, cobrando e ajustando o time em tempo real. Um fato observado aos 23 minutos do primeiro tempo ilustra bem esse perfil: durante o atendimento médico a um jogador caído, Diniz chamou todo o elenco para a lateral do campo e passou instruções detalhadas ao grupo. A cena simboliza não apenas sua intensidade, mas também o controle que busca exercer sobre cada momento da partida.

Contra o Fortaleza, o Vasco foi amplamente superior. Abriu o placar logo aos 3 minutos de jogo com Nuno Moreira e manteve o controle da partida durante os 90 minutos. Vegetti marcou duas vezes, aos 48 do primeiro tempo e aos 80 do segundo, sacramentando a vitória cruzmaltina. O Fortaleza, por sua vez, em nenhum momento ofereceu perigo real ao gol defendido pelo Vasco. A equipe carioca teve domínio territorial e técnico, com presença ofensiva constante e equilíbrio nas transições.

O jogo, no entanto, também foi marcado por um momento de descontrole emocional que poderia ter sido evitado. Aos 68 minutos da segunda etapa, Philippe Coutinho e Marinho foram expulsos após um entrevero. Marinho havia cometido uma falta dura em Adson momentos antes, mas não foi expulso imediatamente. Mesmo diante desse cenário e da possibilidade de vantagem numérica para o Vasco, Coutinho teve uma atitude infantil ao partir para cima do adversário, comprometendo a superioridade numérica que o time poderia ter naquele momento.

Apesar disso, o Vasco continuou superior, criou outras chances e poderia ter construído um placar ainda mais elástico. A equipe teve dois gols corretamente anulados pelo árbitro Anderson Daronco. Se houvesse mais capricho no último passe em algumas jogadas, o resultado final poderia ter sido ainda mais expressivo.

Outro ponto de atenção é o comportamento defensivo do Vasco em alguns momentos da partida. Ainda que o Fortaleza não tenha levado perigo, observou-se que o time recua excessivamente quando é pressionado, permitindo que o adversário jogue dentro de seu campo. Esse aspecto precisa ser corrigido nos treinamentos, e é essencial que o Vasco adote uma marcação mais adiantada e combativa, evitando permitir essa progressão do adversário.

Ainda é cedo para fazer projeções mais ousadas, mas é evidente que o Vasco começa a reencontrar um caminho mais sólido com Fernando Diniz. A vitória não apenas quebra um longo jejum, como também resgata parte da confiança da equipe e da torcida. Com ajustes, especialmente no setor defensivo e na disciplina em campo, o time pode dar passos firmes rumo a uma campanha mais consistente no Brasileirão.

Tiago Scaffo

Fragmentações e Ambições: O jogo político dentro de São Januário

A política interna do Club de Regatas Vasco da Gama tem sido marcada por alianças frágeis, rupturas estratégicas e interesses que, com frequência, se sobrepõem ao bem coletivo da instituição. A história recente comprova esse padrão corrosivo. Nas eleições de 2017, as chapas de Júlio Brant (Sempre Vasco) e de Alexandre Campello (Frente Vasco Livre) formaram uma aliança sob a denominação Sempre Vasco Livre. O acordo previa a presidência de Brant, com Campello como vice-presidente Administrativo, acumulando o cargo de Vice-Presidente de Futebol. No entanto, após a vitória nas urnas, a aliança se desfez. Campello, ainda vinculado ao Identidade Vasco, grupo de situação com forte presença no Conselho Deliberativo, lançou-se como alternativa na eleição interna, realizada entre conselheiros. Sua eleição à presidência só se concretizou porque contou com a chancela da oposição, que, mesmo sem assumir cargos na administração, o apoiou decisivamente, primeiro entre os eleitos e depois no corpo de Beneméritos. Essa composição gerou uma leitura equivocada por parte de muitos, como se a oposição tivesse assumido o poder, quando, na verdade, a estrutura administrativa permaneceu nas mãos da situação. A gestão Campello teve à frente o grupo Identidade Vasco e, pontualmente, aliados de Brant, mantendo, portanto, o domínio político da base situacionista. A oposição, ao contrário do que se costuma afirmar, não ocupou cargos estratégicos e tampouco comandou qualquer frente da administração. Essa virada política evidenciou o peso dos bastidores e da engenharia regimental dentro do clube, sem, no entanto, significar uma ruptura com o bloco que venceu nas urnas da Lagoa.

Atualmente, esse padrão volta a se repetir. A gestão de Pedrinho, que inicialmente contou com o apoio de diversos grupos políticos, incluindo parte dos que compunham a situação à época, hoje é alvo justamente desses mesmos aliados. O ponto de inflexão gira em torno da condução do processo envolvendo a Sociedade Anônima do Futebol (SAF). Em 2024, Pedrinho liderou a rescisão do contrato com a 777 Partners e conduziu a reintegração do futebol ao clube associativo, medida que recebeu amplo apoio interno naquele momento, inclusive de grupos historicamente críticos à SAF, como o Casaca. No entanto, ao longo do tempo, a postura de Pedrinho passou a ser interpretada por alguns desses grupos como de resistência à venda imediata da SAF para um novo investidor. Essa “aparente contrariedade” passou, então, a ser usada como argumento político para desgastá-lo internamente, transformando antigos aliados em opositores e abrindo espaço para novas articulações de poder. A semelhança com episódios anteriores, como o da Identidade Vasco versus Sempre Vasco, está justamente na fragilidade das alianças políticas formadas e na rapidez com que interesses circunstanciais se sobrepõem ao debate institucional duradouro.

Esse tipo de movimentação já não é novidade na política vascaína. Quando Roberto Dinamite, maior ídolo da história do clube, foi eleito presidente, também contou com o apoio de muitos desses mesmos grupos oriundos do MUV (Movimento Unido Vascaíno). Porém, assim como ocorre com Pedrinho, Dinamite foi posteriormente deixado isolado pelos que o colocaram no poder, enfrentando críticas internas e abandono político durante sua gestão. Trata-se de um padrão recorrente: escolhe-se uma figura carismática, com forte ligação com a torcida, para chegar ao comando do clube e, em seguida, essa liderança é enfraquecida por aqueles que antes a exaltavam.

Nesse contexto, é importante destacar o papel do Casaca, que sempre manteve uma postura coerente em relação ao tema. Historicamente contrário à criação da SAF no Vasco, o Casaca nunca se omitiu diante do avanço desse modelo. Desde o início da gestão da 777 Partners, o grupo monitorou e criticou suas ações com responsabilidade, mantendo-se firme em seus posicionamentos. Como grupo político, o Casaca procura sempre manter a coerência e a solidez de seus ideais, colocando o Vasco acima de qualquer ambição pessoal ou conveniência política.

Os grupos que agora se opõem a Pedrinho se utilizam da “aparente contrariedade” do presidente à venda da SAF como arma política para desgastá-lo perante a torcida e o Conselho. O objetivo, no entanto, não é ideológico ou institucional, mas sim o controle do clube, especialmente seu controle financeiro. A atual gestão colocou o Vasco em processo de recuperação judicial, uma medida simplória e irresponsável diante do futuro do clube. Essa escolha não levou em consideração as consequências de imagem e credibilidade da instituição, que agora passa a sinalizar ao mercado financeiro do futebol que não honra com seus compromissos. A decisão compromete a reputação do Vasco como clube sério e pagador, e levanta dúvidas sobre sua capacidade de atrair investimentos genuínos e sustentáveis.

Esses movimentos deixam claro que o que está em jogo não é o futuro do Vasco, mas interesses puramente pessoais e políticos. Muitos dos protagonistas dessa disputa vieram do mesmo núcleo: o MUV. Fragmentado ao longo do tempo, ele originou diversos grupos políticos que vivem em ciclos de união e disputa, acordo e rompimento. Além de abandonarem aqueles que ajudaram a colocar no poder, esses grupos se voltam contra eles com acusações públicas, gerando desgaste institucional e prejudicando diretamente a imagem e a estabilidade do Vasco.

Por conta dessas constantes fragmentações políticas, geradas dentro do próprio MUV e por seus desdobramentos, o torcedor vascaíno passou a associar a política do clube como a principal responsável pelos fracassos financeiros e esportivos do Vasco, especialmente no futebol. Esses grupelhos criaram um ambiente institucional tóxico, de instabilidade permanente, onde alianças são feitas e desfeitas conforme conveniências pessoais, e nunca com foco no futuro do clube. É justamente essa prática que fez crescer, entre os vascaínos, o desejo de total afastamento da política do clube. A aversão da torcida aos políticos do Vasco não nasceu por acaso, ela é o reflexo direto do caos causado por esses mesmos atores, que, ao colocarem seus interesses acima dos do Vasco, afastaram o torcedor das decisões, da esperança e da crença em um projeto sólido e coletivo.

Diante desse cenário de repetidas disputas internas, abandono de lideranças e busca incessante por espaço, um grupo em especial tem buscado manter sua integridade e fidelidade aos ideais que defende: o Casaca. Diferentemente dos grupos que nasceram de rachas e conveniências pessoais, o Casaca se propõe como uma força política sólida, coesa e coerente em suas convicções. Ao longo dos anos, manteve-se fiel à defesa do Vasco acima de qualquer outro interesse, recusando-se a se submeter às lógicas de troca de favores e manipulação de poder que caracterizam tantos outros setores da política vascaína. Com uma postura crítica, porém responsável, o grupo tem como norte a preservação institucional do clube e o respeito à sua história, colocando o escudo e a torcida sempre acima das ambições pessoais.

Esses interesses espúrios, mascarados de discursos por um “Vasco melhor”, mancham a história do clube. O torcedor vascaíno, cansado de tantas trocas de lado, vê a repetição do mesmo roteiro: alianças provisórias, promessas rasas e brigas internas travestidas de debate institucional. Enquanto o jogo político for mais importante do que o jogo dentro de campo, o Vasco continuará refém de lideranças que pensam mais em si mesmas do que no escudo que dizem defender.

Tiago Scaffo

A era que desenha um crime contra a história do CRVG

A inacreditável derrota para o Vitória por 2 a 1 no Barradão, mesmo jogando com um homem a mais desde os 33 minutos do primeiro tempo, é apenas mais um capítulo agoniante, em uma sequência de vexames que marcam uma das gestões mais desastrosas da história do Vasco. Não bastasse perder de virada em Salvador, o clube já havia passado pelo constrangimento internacional de ser derrotado em casa pelo Puerto Cabello, da Venezuela, um time de segunda linha por lá, que jamais teria condições de competir com um Vasco minimamente estruturado. Esses resultados deploráveis não são coincidência e sim consequência direta da incompetência, do despreparo e da desorganização interna da direção.

Pedrinho, que assumiu a presidência prometendo resgatar a identidade do Vasco, mostrou-se até aqui um gestor perdido, incapaz de tomar decisões com firmeza, refém de relações pessoais e completamente desconectado das necessidades do clube. A permanência de Felipe Loureiro como diretor técnico foi o retrato mais claro dessa tragédia administrativa. Felipe se manteve até aqui no cargo, fundamentalmente por ser amigo de infância do presidente. Não tem preparo, não tem resultados, não tem justificativa alguma para continuar onde está. A manutenção de seu cargo, após as declarações dadas pós jogo frente ao Operário-PR, foram inadmissíveis. Não podemos esquecer que as derrotas seguidas e as inaceitáveis performances, principalmente nos últimos dois jogos, são reflexos da sua incapacidade em comandar o futebol do Vasco. Ao menosprezar um atleta em público, com todas as letras, num discurso concatenado e irresponsável, atingindo, por conseguinte, um ativo do clube, Felipe contribuiu diretamente para a desvalorização do elenco e para um provável estremecimento de sua relação com o plantel.

As decisões técnicas e administrativas têm sido, em sua maioria, desastrosas. Contratações de jogadores foram feitas sem critério, sem convicção, sem análise de elenco, que já é inchado. É visível o nível de improvisação e péssimo profissionalismo que toma conta da formação do conjunto de dentro e de fora das quatro linhas, afinal já vamos para o quarto treinador em um ano (excluindo da conta o interino Felipe). O resultado disso está em campo: um time frágil, sem padrão, incapaz de competir com clubes menores do futebol brasileiro e, pior, sendo superado por equipes do nível da que enfrentamos quarta-feira passada.

A gestão ainda tomou a injustificável decisão de vender o mando de campo do jogo contra o Palmeiras para Brasília. Isso afastou o Vasco de São Januário por quase um mês, tirou o time do calor da sua torcida e prejudicou ainda mais a já combalida relação entre ela e a direção. É uma atitude pequena, medíocre, que só evidencia o quanto esta diretoria não compreende, ou ignora, o valor simbólico e esportivo de sua própria casa. A situação foi tão esdrúxula que o próprio estádio Mané Garrincha, utilizado como mando de campo do Vasco, ficou todo em verde, homenageando o Palmeiras, time visitante da partida, após o jogo. Isso expõe ainda mais a falta de respeito ao clube. Foi, em síntese, uma tola opção de gestão.

No campo financeiro a situação é ainda mais alarmante. A gestão atual lançou o Vasco em um processo de recuperação judicial (antiga concordata), tentando renegociar uma dívida de aproximadamente R$ 900 milhões (a dívida fiscal que chega a R$500 milhões não entra na recuperação judicial), anunciando há dias como receita do ano passado 473 milhões e após fechar um contrato, apenas concernente a cotas de TV e placas publicitárias (com algumas plataformas ainda não negociadas) de 1,2 bilhão para os próximos cinco anos.

A partir do momento que o Vasco entra em recuperação judicial, o clube passa a sinalizar ao mercado, que não possui condições mínimas financeiras de arcar com seus compromissos e se apresenta como um “mau pagador”, jogando nela, inclusive, débitos com instituições, que lhe disponibilizaram atletas, usufruídos atualmente pelo próprio clube. Essa situação não é bem vista externamente e pode afetar negócios futuros dos mais variados. A alternativa, irresponsavelmente buscada, ao invés de ser um sinal de reestruturação palatável, passa a ser um alerta negativo para quem quer transacionar com o Vasco. Não houve debate prévio, quando o assunto veio à torcida em reunião de Conselho, transmitida para o mundo todo. Não houve discussão. Não houve diálogo. A torcida/sócios, que deveriam ser informados com detalhes do significado dessa aventura, com justificativas sobre o passo a passo do processo, já veem o clube e a SAF imersos num contexto vulnerável, desnecessariamente, numa escolha que não teve sequer consulta formal ao quadro social.

A sensação é de absoluto abandono. A atual gestão transformou o Vasco num clube à deriva, onde decisões são tomada sem critério técnico, sem responsabilidade institucional, sem necessária ligação com a grandeza da camisa que se representa. A torcida que lota estádios, paga mensalidades na qualidade de sócios, compra produtos, é tratada como um estorvo, quando cobra, e não como a alma viva do clube (assim enxergada apenas em situações convenientes). Não há escuta, não há respeito, não há consideração. A atual diretoria age como se o clube fosse um quintal pessoal, como se tivesse o direito de dilacerar um patrimônio intangível, que é coletivo.

Nunca, em nenhuma era, o Vasco passou por uma crise política e institucional tão profunda, tão vergonhosa, tão devastadora. Nem nas piores administrações do passado se viu tamanha falta de rumo, tamanha desconexão com o que é ser Vasco. Essa gestão não fracassou apenas nos resultados: ela fracassou moralmente, institucionalmente, simbolicamente. Transformaram o Vasco num clube irreconhecível. O que está acontecendo não é apenas preocupante. É deplorável. É revoltante. E se não houver reação imediata, o clube seguirá ladeira abaixo, diante dos olhos de milhões.

Tiago Scaffo.

Parabéns, Garotos do Vasco Sub-17! Campeões da Copa do Brasil e mostram caminho que a Diretoria precisa seguir

O Vasco da Gama reafirmou nesta terça-feira (6) a sua vocação histórica como clube formador ao conquistar, de maneira invicta, o seu primeiro título da Copa do Brasil Sub-17. Em uma decisão emocionante no Estádio Luso-Brasileiro, os Meninos da Colina empataram por 2 a 2 com o Bahia no tempo regulamentar, com gols de Andrey Fernandes e Cristofer, e venceram por 5 a 3 nos pênaltis, com uma defesa decisiva do goleiro Lucas Andrade. O título é simbólico: mostra que, mesmo em meio a dificuldades, o talento forjado em São Januário continua pulsando.

A história do Vasco sempre foi construída com base em sua força nas divisões inferiores. De lá saíram nomes que marcaram época, como Roberto Dinamite, maior artilheiro do clube e do Campeonato Brasileiro, e Romário, que começou sua trajetória no Vasco antes de se tornar o melhor jogador do mundo pela FIFA em 1994 e ser peça-chave na conquista do tetracampeonato com a Seleção. Outros nomes como Philippe Coutinho, Alex Teixeira, Douglas Luiz, Paulinho, Alan Kardec, Ricardo Graça, Luan Garcia, Alan, Morais, Evander e Gabriel Pec também saíram da base cruzmaltina e ganharam o mundo.

É impossível falar dessa tradição sem citar Felipe Maestro e Pedrinho, revelados em São Januário e multicampeões no final dos anos 1990. Hoje, ambos ocupam posições de liderança no clube, Felipe como diretor técnico e Pedrinho como presidente. São dois ex-atletas que conhecem, como poucos, o valor da base e sua importância no resgate do Vasco. Justamente por isso, é incompreensível e frustrante que essa gestão esteja negligenciando a integração entre os talentos formados no clube e o elenco profissional.

A diretoria atual, apesar do discurso de reconstrução, insiste em repetir erros de outras administrações recentes ao priorizar contratações que pouco contribuem tecnicamente, ignorando o potencial dos jovens que vestem a cruz de malta desde cedo. Falta planejamento, convicção e, sobretudo, sensibilidade para perceber que a base é mais do que uma promessa: é um ativo estratégico, esportivo e financeiro. Ver Felipe e Pedrinho, figuras que simbolizam essa tradição, não atuando firmemente para promover essa conexão é decepcionante. Justamente quem viveu essa transição e sabe o peso de uma oportunidade no time principal deveria liderar esse movimento com convicção.

O título da Copa do Brasil Sub-17 é mais do que uma taça: é um sinal claro de que o caminho está traçado. Cabe agora à gestão reconhecer esse potencial e agir com coerência. A mescla entre juventude e experiência sempre foi uma receita segura no futebol. No Vasco, ela está sendo desperdiçada.

Valorizar a base não é o único caminho, mas certamente é um dos principais para que o Vasco volte a ser protagonista de sua própria história, e da história do futebol brasileiro. Os Meninos da Colina mostraram que estão prontos para dar o próximo passo. Resta saber se quem comanda o clube terá a grandeza de olhar para dentro e reconhecer que o verdadeiro futuro do Vasco já está sendo moldado, e como sempre, em São Januário.

Tiago Scaffo

De Ídolo a Alvo

O Vasco da Gama atravessa um dos períodos mais conturbados de sua história recente, marcado por decisões administrativas controversas, falta de planejamento e um distanciamento crescente entre a diretoria e sua apaixonada torcida. A gestão atual, liderada por Pedrinho, tem acumulado erros que comprometem não apenas o desempenho esportivo, mas também a credibilidade institucional do clube.

A ascensão de Pedrinho à presidência foi inicialmente recebida com simpatia por boa parte da torcida. Ex-jogador do clube e comentarista de TV, ele carregava consigo uma imagem positiva, associada a um período bom da história vascaína e reforçada por sua postura técnica, comentando futebol, uma vez na imprensa. No entanto, ao assumir a presidência, a relação simbólica com a torcida deu lugar à realidade dura das cobranças por resultados e gestão eficaz. A empatia inicial se transformou em frustração, sobretudo quando decisões fundamentais começaram a expor a falta de preparo e comando.

Em maio de 2024, já com o controle do futebol de volta ao clube, após a ruptura com a 777 Partners, a diretoria permitiu que o técnico português Álvaro Pacheco, contratado ainda na transição, assumisse o cargo. Sua estreia resultou em uma derrota inaceitável por 6 a 1 para o Flamengo, a maior sofrida pelo Vasco na história do clássico. Pacheco permaneceu apenas 30 dias no cargo, com um desempenho de três derrotas e um empate, sendo demitido em junho. Pedrinho demorou dois dias para se pronunciar após o vexame citado, agravando a sensação de omissão.

Ainda no final de 2024, houve a tentativa frustrada de contratar Renato Gaúcho, que recusou o convite por divergências salariais. Essa tentativa, seguida pela chegada de Fábio Carille já em 2025, escancarou a ausência de planejamento técnico. O elenco, por sua vez, teve nas contratações de atletas, com poucas exceções, performances até aqui não correspondidas quanto às expectativas, sendo amplamente alvo de contestação por parte da torcida.

No plano econômico-financeiro, a gestão se mostrou desorganizada. O balanço patrimonial de 2023 foi apresentado com mais de três meses de atraso, revelando uma dívida de R$ 212 milhões. Posteriormente, em fevereiro de 2025, o clube ingressou com um pedido de recuperação judicial para reestruturar uma dívida estimada em R$ 1,4 bilhão. A medida, anunciada sem debate prévio com os sócios e nenhum na reunião que definiu a escolha pelo caminho da Recuperação Judicial (antiga Concordata) no Conselho Deliberativo, apesar de inúmeros questionamentos dos conselheiros não vinculados à situação. Pouco mais de um mês depois, foi apresentado pela empresa que fará a função de Administrador Judicial na Concordata um número de admissões do mês de maio em diante, superior a 100 funcionários (contra pouco mais de 30 demissões), enquanto o clube alegava dificuldades financeiras e se punha numa situação falimentar, em relação à SAF, no discurso de dentro da própria direção, fora as compras de direitos econômicos, que fizeram dessa gestão, no século, a que mais gastou com esse modelo de contratação, em considerando o Vasco tomando as rédeas do futebol, como sempre ocorreu em mais de 125 anos, dos seus quais 127 anos de vida.

Um episódio emblemático dessa desorganização financeira foi a dívida com o São Paulo pela contratação do zagueiro Léo. O Vasco adquiriu o jogador em 2023 por R$ 17 milhões, mas pagou apenas 45% do valor acordado. Mesmo sem quitar a dívida, o clube carioca vendeu o atleta ao Athletico-PR por R$ 12,5 milhões. Diante da inadimplência, o São Paulo acionou a CBF e a Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD), e considerou recorrer à FIFA para solicitar sanções contra o Vasco, como o impedimento de registrar novos jogadores, enquanto o clube jogou na recuperação judicial o débito .

No campo institucional e organizacional, a gestão Pedrinho demonstrou fragilidade. Não houve posicionamento firme em episódios cruciais, como as polêmicas do Campeonato Carioca de 2025, a falta de pressão institucional frente à FERJ em arbitral prévio à competição, ou quanto à vontade exposta de atuar contra o Flamengo no Campeonato Brasileiro de 2025 em São Januário e a omissão posterior à fala. A condução administrativa ficou marcada por relações pessoais e escolhas questionáveis, como a manutenção de aliados próximos em cargos-chave e a ausência de reações firmes e explícitas em episódios que exigiam liderança, como o recente caso envolvendo o diretor técnico Felipe, com quem Pedrinho tem relação próxima.

Tudo isso resultou em um ambiente de crescente impaciência da torcida e desgaste da figura presidencial. A imagem de Pedrinho, antes blindada por sua história no clube, passou a ser diretamente associada ao fracasso técnico, à falta de direção institucional e à desconexão com os anseios do torcedor. A situação culminou em um episódio simbólico e grave: a agressão, em Brasília, de um torcedor que protestava pacificamente contra a diretoria, cometida por um segurança do clube. Longe de ser um fato isolado, esse ato violento representa o colapso da relação entre gestão e torcida, um reflexo direto de uma administração que, em vez de ouvir e dialogar, tem preferido o silêncio, o bloqueio nas redes sociais e a repressão.

Diante desse cenário, é imperativo que a diretoria do Vasco da Gama adote uma postura mais transparente, dialogando com sócios e torcedores e estabelecendo um planejamento estratégico claro e eficaz. A reconstrução da confiança passa por reconhecer erros, abandonar relações políticas personalistas e reafirmar um compromisso institucional com os valores históricos do clube. Só assim o Vasco poderá superar a crise atual e retomar o caminho das vitórias e conquistas, dentro e fora de campo.

Tiago Scaffo

A Perda da Essência: Do Futebol de Raiz ao Modelo Importado

Houve um tempo em que o Brasil ditava o ritmo do futebol mundial. Não apenas pela excelência técnica de seus jogadores ou pelos quatro títulos mundiais conquistados (até então), mas pela forma única com que o esporte era vivido e compreendido em território nacional. Antes da chegada da Lei Pelé, em 1998, que mais de duas décadas depois desembocaria na Lei da Sociedade Anônima do Futebol (SAF), em 2021, o futebol brasileiro operava sob uma lógica muito mais conectada com sua cultura e realidade socioeconômica do que com um ideal abstrato de gestão empresarial.

Nesse cenário anterior, clubes eram, em essência, associações civis sem fins lucrativos, regidas pelo direito privado e protegidas por uma lógica comunitária e cultural. Embora marcados por problemas de governança e clientelismo político, mantinham um vínculo orgânico com suas torcidas, seus territórios e suas histórias. O futebol funcionava como uma extensão da vida social, era memória, identidade e resistência.

A Lei nº 9.615/1998, conhecida como Lei Pelé, representou uma ruptura. Substituiu a antiga Lei Zico (Lei nº 8.672/1993) e impôs uma série de mudanças com o discurso da profissionalização do esporte. Uma das principais alterações foi o fim do “passe”, mecanismo que garantia aos clubes formadores alguma retenção sobre os atletas. Embora isso tenha favorecido os jogadores do ponto de vista contratual, criou um vácuo legal que facilitou a atuação de empresários e intermediários no mercado, acelerando o êxodo precoce de talentos. O Brasil, que antes exportava craques depois de consagrá-los, passou a fornecer matéria-prima bruta, sob medida para os interesses da Europa.

Ao longo dos anos 2000, os clubes brasileiros, fragilizados financeiramente, enfrentaram crescente dificuldade de manter suas estruturas e plantéis. Em vez de revisitar e reformar o modelo associativo com base em critérios técnicos e culturais nacionais, optou-se por importar soluções jurídicas com base no modelo europeu. Esse processo culminou na aprovação da Lei nº 14.193/2021, que instituiu a Sociedade Anônima do Futebol (SAF). Inspirada parcialmente em estruturas de clubes-empresa europeus, especialmente da Inglaterra e da Alemanha, a SAF foi vendida como a panaceia para a crise dos clubes brasileiros. Contudo, a aplicação desse modelo em solo nacional desconsidera elementos estruturais: a ausência de regulação federativa eficiente, o pouco controle sobre o capital investido e a fragilidade institucional das entidades esportivas.

A imprensa esportiva brasileira teve papel determinante nesse processo. Longe de ser um espaço plural de debate, consolidou-se como agente ideológico da europeização. Programas e colunistas passaram a repetir, quase como mantra, que o futebol brasileiro era “atrasado” e que somente a lógica empresarial, com capital externo, CEOs e planilhas, poderia salvá-lo. Não houve espaço para questionar a viabilidade desse modelo em um país com tamanha desigualdade regional, ausência de cultura de compliance esportivo e enorme disparidade de receitas entre clubes.

Esse processo encontra um caso emblemático na trajetória recente do Vasco da Gama. Clube de origem popular e tradição inclusiva (tendo sido protagonista no movimento contra o racismo e o elitismo no futebol nos anos 1920 com a célebre Resposta Histórica), o Vasco foi um dos clubes que mais sofreu com a imposição de uma narrativa de crise crônica e incapacidade gerencial. A venda de 70% da SAF vascaína para a empresa norte-americana 777 Partners, em 2022, foi amplamente apoiada por segmentos da mídia como uma medida “inevitável” para a modernização do clube. Curiosamente, grande parte da torcida vascaína, mesmo ciente da histórica parcialidade da imprensa contra o clube, acabou aderindo ao discurso, aceitando a SAF como “única saída”. Trata-se de um caso evidente de como a mídia, ao longo do tempo, não apenas informou, mas moldou a percepção e o comportamento coletivo, mesmo em ambientes de resistência.

O modelo europeu, exaltado como padrão de sucesso, tampouco é homogêneo ou infalível. A Espanha é o exemplo mais explícito de distorção: enquanto Real Madrid e Barcelona seguem como associações com forte apoio estatal e privilégios fiscais, os demais clubes foram forçados a se tornarem sociedades anônimas. O resultado é uma liga profundamente desigual. A Alemanha, por sua vez, mantém a regra do “50+1”, que exige que os sócios do clube tenham a maioria do controle acionário, uma salvaguarda contra a perda de identidade e controle popular. Mas esses modelos são ignorados no debate nacional, que prefere importar versões adaptadas à conveniência de investidores.

Ao transformar clubes em produtos e torcedores em consumidores, o Brasil abdicou de sua liderança cultural no futebol. A essência comunitária do esporte foi sacrificada em nome de uma modernidade que, na prática, reproduz desigualdades, concentra poder e aliena o torcedor de suas próprias instituições. O país que outrora inspirou o mundo com sua irreverência e genialidade dentro de campo agora tenta desesperadamente copiar fórmulas que não respeitam sua alma.

Mais do que uma falha de gestão, trata-se de um erro de identidade. E talvez seja justamente por isso que o futebol brasileiro, apesar da abundância de talentos, vive um vazio simbólico. Perdemos a referência não porque fomos superados, mas porque abrimos mão de ser quem éramos.

Tiago Scaffo.

Palavras, apenas palavras, pequenas palavras ao vento: A fala que expôs o despreparo

As palavras de Felipe Loureiro, após o empate contra o Operário, pela Copa do Brasil, dizem muito mais sobre o momento do Vasco do que o desempenho em campo. Ao ser questionado por um jornalista na entrevista coletiva sobre a situação do zagueiro Manuel Capasso, o técnico interino e também diretor técnico do clube respondeu com desprezo: “Se você gosta dele, não tem problema, eu não gosto.” Foi desnecessário. Foi arrogante. Foi desrespeitoso.

A frase, por si só, já seria grave, mas torna-se ainda mais preocupante por ter vindo de quem ocupa duas funções centrais no futebol de um clube do tamanho do Vasco. Capasso pode estar fora dos planos, pode ter recusado propostas, pode estar envolvido em desentendimentos entre diretoria e empresário, nada disso justifica ser atacado publicamente dessa maneira. Ele é jogador do clube, e um dirigente de qualquer nível deveria saber que o respeito à instituição começa pelo respeito às pessoas que a representam.

Felipe expôs um ativo do clube com ironia. Expôs também um repórter que apenas fazia seu trabalho. E, mais uma vez, mostrou que prefere os microfones à gestão. É a vaidade se sobrepondo à função. E é justamente aí que mora o problema: o Vasco precisa de comando, não de ego.

Em campo, mais do mesmo. O empate em 1 a 1 contra o Operário foi triste de assistir, salvo por um único momento de brilho: o lindo gol de Nuno Moreira que até aqui, a única contratação de 2025 que efetivamente deu certo. O restante foi um time sem identidade, sem intensidade, sem direção.

Fora de campo, o cenário é ainda mais revoltante. O torcedor vascaíno segue sendo o maior ativo do clube. É ele quem viaja, quem lota arquibancadas pelo Brasil, quem grita, chora, canta e nunca abandona. E o que tem recebido em troca? Desorganização, falas desrespeitosas, falta de resultados e promessas vazias. A diretoria parece alheia ao que vive a arquibancada. Não responde com futebol, não responde com transparência, não responde com respeito.

Felipe Loureiro precisa entender o que significa estar à frente do futebol do Vasco. Não é sobre vencer disputas verbais. É sobre reconstruir um departamento que vive um colapso técnico e institucional há anos. É sobre liderar com profissionalismo e compromisso, não com frases de efeito.

Porque, como já se ouviu, e é cada vez mais apropriado repetir: “Quem ganha a vida com a boca é cantor”. Felipe tem falado demais e entregue de menos.

O Vasco não aguenta mais palavras. Precisa de trabalho, e trabalho competente.

Tiago Scaffo.

Maratona exaustiva expõe Vasco e pressiona Carille enquanto diretoria ignora impacto esportivo

O Vasco da Gama vive um dos momentos mais desgastantes da temporada. Sob o comando de Fábio Carille, o time entra em uma sequência brutal de partidas entre o fim de abril e o encerramento de maio. Embora atue oficialmente como mandante em algumas dessas datas, o clube, por decisão da diretoria, abriu mão de São Januário em jogos importantes, ampliando o número de compromissos fora de casa. A logística adotada é alvo de críticas e eleva a pressão sobre elenco, comissão técnica e bastidores.

A maratona começa no dia 27 de abril, contra o Cruzeiro, em Uberaba (MG), pelo Brasileirão. No dia 1º de maio, enfrenta o Operário-PR em Ponta Grossa pela Copa do Brasil. Em seguida, mesmo como mandante, o Vasco abre mão de jogar em São Januário e encara o Palmeiras no Estádio Mané Garrincha, em Brasília (4/5), longe de sua torcida tradicional. A sequência continua com viagens internacionais e interestaduais: visita o Academia Puerto Cabello na Venezuela (7/5), o Vitória em Salvador (10/5) e o Lanús na Argentina (13/5). Só então retorna ao Rio para jogar em São Januário contra o Fortaleza, no dia 17, seguido pelo duelo de volta contra o Operário, no dia 20. Quatro dias depois, novo jogo sem ser o mandante: clássico contra o Fluminense no Maracanã (24/5). O mês se encerrará com dois jogos agendados, a princípio, para os dias 27 e 31 de maio: contra o Melgar, pela Copa Sul-Americana, e o Bragantino, pelo Campeonato Brasileiro, ambos em São Januário.

No total, entre 27 de abril e 31 de maio, o Vasco terá disputado onze partidas, sendo oito fora de casa, se incluirmos os mandos vendidos e o clássico no Maracanã, e apenas três em São Januário. O time se torna um verdadeiro visitante em sua própria temporada, pagando um preço alto por escolhas administrativas.

A decisão de vender mandos, como no caso do jogo contra o Palmeiras, tem sido duramente criticada por torcedores e especialistas. Justificada por interesses financeiros, essa prática compromete a competitividade da equipe. O Vasco abre mão do fator casa justamente em um dos períodos mais exigentes da temporada, com jogos decisivos em três frentes: Brasileirão, Copa do Brasil e Sul-Americana. Essa estratégia evidencia uma falta de planejamento esportivo e mostra despreparo da diretoria para equilibrar finanças com desempenho em campo. Ao colocar arrecadação imediata acima da estabilidade do time, a gestão isola jogadores e comissão técnica da atmosfera de apoio que só São Januário proporciona.

O técnico Fábio Carille, pressionado por resultados e pela desconfiança de parte da torcida, enfrenta o desafio de comandar o elenco em meio a viagens incessantes, pouco tempo de preparação e adversários qualificados. Embora tenha perfil experiente e pragmático, Carille ainda busca encaixe ideal e sofre com o desgaste físico e emocional de um grupo que mal consegue treinar entre os jogos. A Sul-Americana surge como principal esperança de título, mas a maratona imposta pela logística arriscada da diretoria pode cobrar caro nas rodadas finais da fase de grupos, especialmente diante de rivais diretos como Lanús e Melgar.

Maio pode definir o rumo da temporada do Vasco. A escolha da diretoria de abrir mão de São Januário em meio a um calendário já sufocante expõe o elenco a um risco técnico enorme. A maratona como visitante é mais do que uma sequência dura: é o reflexo de uma gestão que priorizou o caixa imediato e negligenciou a base do futebol competitivo, o apoio da torcida, o descanso dos atletas e a força do mando de campo.

Tiago Scaffo.

Entre a Xenofobia e o Racismo: A Origem Histórica da Resistência Vascaína

Muita gente tenta reescrever a história do Club de Regatas Vasco da Gama, mas os fatos continuam sendo claros: o Vasco foi, sim, pioneiro na luta contra o racismo e a exclusão social no Brasil. E isso tem tudo a ver com sua origem, e com o preconceito que seus próprios fundadores sofreram.

Fundado por imigrantes portugueses pobres no fim do século XIX, o Vasco nasceu de um grupo social marginalizado. Sim, os portugueses eram vítimas de xenofobia no Brasil. Não é “racismo reverso”, é perseguição histórica contra imigrantes, especialmente no Rio de Janeiro, onde os lusitanos eram alvos constantes de piadas, estereótipos e exclusão social. As elites locais viam com desconfiança e desprezo qualquer instituição popular com raízes portuguesas.

Na virada do século XIX para o XX, o Rio de Janeiro vivia um processo de “higienização” urbana e simbólica, influenciado por ideais eugenistas e racistas vindos da Europa. Nesse cenário, os portugueses, apesar da branquitude, eram vistos como “degenerados” pelas elites nacionais, acusados de serem sujos, rudes, atrasados e incapazes de contribuir para o “progresso” da nação. Intelectuais da época, como Nina Rodrigues e Oliveira Vianna, reforçavam essas ideias em textos pseudocientíficos que circulavam nos meios acadêmicos e políticos. Não por acaso, os portugueses eram retratados em charges como caricaturas grosseiras, chamados de “cascudos” ou “galinhas”, e associados à ignorância e ao atraso.

Nas zonas portuárias e nos bairros operários do Rio, brigas e episódios de violência envolvendo imigrantes portugueses não eram raros, muitas vezes provocados por brasileiros que os consideravam intrusos. O preconceito também se manifestava institucionalmente: havia resistência à participação de portugueses em associações, clubes e cargos de prestígio. Em jornais da época, eram comuns textos atacando a presença portuguesa em setores do comércio e da vida pública.

É nesse contexto que surge o Vasco: como espaço de acolhimento e resistência. Assim como outros clubes de imigrantes da época (espanhóis, judeus, italianos, alemães), o Vasco se construiu como um refúgio das classes populares, dos não aceitos pela elite. Só que ao contrário de outros, o Vasco ousou ir além: enfrentou de frente o racismo no futebol brasileiro.

O que começa como um grito contra a xenofobia rapidamente se transforma em uma causa ainda maior: uma luta humanitária por dignidade, inclusão e justiça social. A experiência de exclusão sofrida pelos fundadores portugueses moldou uma sensibilidade coletiva que enxergava os negros, os operários, os pobres, os nordestinos e todos os marginalizados não como rivais sociais, mas como aliados na mesma resistência. A Carta Histórica de 1924, que recusava ceder à pressão elitista para excluir jogadores negros e pobres, é só um dos frutos mais visíveis dessa ideologia nascida da dor e da solidariedade.

O episódio da Resposta Histórica de 1924 é simbólico: o clube foi pressionado a excluir jogadores negros, pobres e analfabetos. Recusou. Preferiu sair da liga do que trair seus princípios. Foi o único. Isso em uma época em que outros clubes simplesmente barravam atletas pela cor da pele ou pelo lugar de origem.

E não foi só isso. O Vasco tinha sócios negros no início do século XX, e um deles foi presidente do clube em 1904. Funcionários como Custódio Moura alfabetizavam jogadores, formando atletas-cidadãos. Isso era revolução social.

Esse histórico, no entanto, tem um preço. Desde o início, o Vasco foi vítima de preconceito institucional. Era o “clube dos portugueses”, “do povão”, o time dos negros, analfabetos, operários. Até hoje, a imagem do Vasco ainda é alvo de piadas, estigmas e desdém, tanto de torcedores rivais quanto de parte da mídia. O preconceito nunca sumiu: ele só se adaptou.

Na verdade, a perseguição que o Vasco sofreu, por ter negros, operários e pobres no time, e por manter suas raízes populares e portuguesas, não foi apenas fruto de intolerância racial ou social, mas também da incompreensão diante de um clube que já naquela época lutava por causas humanitárias, igualitárias e equitativas. O Vasco foi perseguido por ousar defender o óbvio: o direito de todos pertencerem. E essa luta, que começou como defesa contra a xenofobia, cresceu até se tornar um manifesto em nome da dignidade humana. Foi, e continua sendo, uma luta por causas lógicas, mas que, à época, pareciam revolucionárias demais para uma sociedade ainda presa ao elitismo e ao preconceito.

Assim, o Vasco não nasceu apenas como um clube esportivo, mas como um projeto de humanidade. Um símbolo de resistência que carrega, desde o início, a herança de lutar por quem nunca teve vez, porque seus fundadores também não tiveram. A luta do Vasco é, desde sempre, a luta dos de baixo. E por isso ela é eterna.

Tiago Scaffo.

A Criação da Flapress e o Impacto Negativo ao Vasco da Gama: Um Prejuízo que Vai Além das Quatro Linhas

A chamada Flapress não é apenas um termo cunhado por torcedores inconformados. É a manifestação de um fenômeno real, sustentado por interesses midiáticos que colocam o Flamengo em um pedestal, ao mesmo tempo em que rebaixam ou ridicularizam seus adversários históricos, principalmente o Club de Regatas Vasco da Gama. A parcialidade escancarada da imprensa esportiva brasileira, sobretudo da Rede Globo, ao longo das últimas décadas, é um ataque direto à isonomia do futebol nacional.

E ninguém enfrentou essa máquina com mais coragem e veemência do que Eurico Miranda. Presidente mais polêmico e combativo da história vascaína, Eurico travou uma verdadeira guerra contra a Rede Globo a partir dos anos 2000, denunciando publicamente a manipulação da narrativa esportiva, o favorecimento escancarado ao Flamengo e os prejuízos que isso causava ao Vasco dentro e fora de campo. Não se calou diante dos desmandos e não se rendeu ao poder financeiro e midiático da emissora, mesmo quando isso custou espaço, exposição e, em muitos momentos, visibilidade ao clube.

A briga com a Globo foi mais do que uma questão contratual, foi um embate político, institucional e simbólico. Eurico sabia que o Flamengo era utilizado como ferramenta de manipulação popular. Um clube com enorme massa torcedora, explorado como produto emocional para manter audiências, fidelizar públicos e, principalmente, controlar narrativas. O Flamengo se tornou, nas mãos da Rede Globo, uma verdadeira massa de manobra política e social, um “povo” uniformizado, conduzido por manchetes e transmissões que vendem heróis, escondem falhas e empurram uma ideia de hegemonia fabricada nos bastidores, não no campo.

Enquanto isso, o Vasco da Gama, clube de origem popular, pioneiro na luta contra o racismo no futebol, vencedor da Libertadores e protagonista de diversos momentos históricos, foi tratado com descaso. As conquistas vascaínas foram minimizadas; suas crises, ampliadas; seus méritos, ignorados. A Flapress, essa engrenagem midiática a serviço de um único clube, contribuiu diretamente para a deterioração da imagem do Vasco, afetando seu prestígio, sua relação com patrocinadores e até sua autoestima institucional.

Essa cobertura tendenciosa não é inocente. Trata-se de um projeto de poder. Quando a mídia deixa de informar para idolatrar, ela não apenas trai o jornalismo, ela manipula o esporte e reescreve sua história. O Vasco da Gama foi, e continua sendo, vítima dessa engrenagem. Sua torcida foi desrespeitada, sua história marginalizada, e sua luta silenciada.

Hoje, mais do que nunca, é necessário resgatar o legado de resistência de figuras como Eurico Miranda que nunca aceitou que o Vasco se ajoelhasse perante a narrativa imposta pela Rede Globo e seus aliados. A luta contra a Flapress é, portanto, uma luta por justiça, por equidade e pela soberania da verdadeira essência do futebol: a meritocracia dentro das quatro linhas.

Enquanto a imprensa seguir servindo a interesses escusos e tratando o Flamengo como uma ferramenta de manipulação emocional de massas, o futebol brasileiro continuará refém de uma farsa bem produzida, mas profundamente injusta. E o Vasco da Gama, assim como sua imensa e fiel torcida, seguirá resistindo.

Tiago Scaffo