O último dia de janeiro de 2018 foi especial para o vascaíno. Fazia tempo, infelizmente, desde a nossa última participação na Libertadores. Após 2012, com o estopim da falta de gestão do clube, o Vasco viveu período de derrocada vertiginosa da instituição, levando a crise quase insustentável até 2014. Sua reconstrução, iniciada em 2015, com toda a dificuldade em meio a dívidas que batiam na porta do Vasco a cada semana, veio a dar frutos somente agora em 2017, recuperando o direito de participar da principal competição do continente.
Os mais ansiosos, como eu, já respiravam a partida desde muito antes, analisando onde fica Concepción no mapa, certificaram que dentre os adversários bolivianos da próxima fase, é o Oriente Petrolero que não joga na altitude, além de já se prepararem para o inevitável grupo da morte.
Por isso mesmo, dia 31, os vascaínos amanheceram num misto de alegria e guerra. Alegria por voltar para a Libertadores, ser estudado pelos jornalistas argentinos (“Atento, Racing”), matérias e mais matérias na imprensa cobrindo a equipe, ler sobre a recepção ao time no Chile, entre outras mais. A guerra vinha do próprio clima de Libertadores! Dia de dar chutão, de enfrentar torcida te xingando em espanhol e sacanear flamenguista com secador na mão.
Por isso mesmo, cada vascaíno, ao seu jeito, foi se preparando pra noite de estreia. Alguns abarrotaram a geladeira, outros marcavam aquele lugar cativo no bar com os amigos, outros fizeram figa o dia inteiro, com a mulher falando apenas o indispensável, já sabendo que o risco de uma resposta desaforada seria grande. No entanto, considerando que cada um tem sua maneira de se preparar para jogos importantes do Vasco, todos os vascaínos estavam focados e compenetrados em passar de fase na Libertadores, torcendo muito pelo time.
Bem… nem todos.
Alguns, certamente, nem ligaram pra isso. Realmente não pareciam nada preocupados com o desempenho da equipe, com um bom resultado no Chile, em chegar a fase de grupos, nada disso. Na véspera, se preocuparam em desrespeitar a vontade daqueles que mais devem ser reverenciados dentro do clube. Os Beneméritos e o Conselho da qual fazem parte. Aquele seleto grupo de pessoas que dedicaram décadas de suas vidas em benefício do Vasco. Para a eleição deste Conselho, vencida pelo Grande Benemérito Eurico Miranda, as palavras rancorosas destas pessoas foram: “parabéns ao Imperador”.
Uma infelicidade que traduz falta de respeito nem tanto com o presidente eleito, mas com os próprios Beneméritos, insinuando talvez uma subserviência destes senhores. Logo eles, que se dedicaram e se dedicam a servir ao Vasco, estariam, pasmem, intimidados a votar contra o que considerariam o melhor para o clube. É dever primário de alguém que vive e atua no âmbito político de uma instituição, respeitar seus poderes e as pessoas que as compõem.
Infelizmente, para o bom andamento do clube, não foi isso o que aconteceu. Felizmente, para nós vascaínos, a presidência do Vasco não foi para pessoas que pensam dessa forma, que tratariam de ignorar funções exercidas pelo Conselho de Beneméritos, como sugerir e acompanhar as iniciativas da Diretoria Administrativa.
Para essas pessoas, a avassaladora vitória por 4 a 0 não mereceu uma linha sequer de comemoração. É sério. A vitória não valeu nem um “tapinha nas costas”. O tal “time do Eurico” havia vencido, convencido, anunciado com autoridade sua volta à Libertadores. O comentarista da TV, veja você, elogiou a façanha de se contratar um jogador qualificado e experiente como o Desábato, em meio a conturbada situação política, mas teve logo que mudar de assunto para não dar nome aos bois. Sabe como é, elogiar quem contratou no “time do Eurico”, não é coisa que se faça em pleno horário nobre.
Eu poderia muito bem me dedicar a rir da imprensa em geral, seja pelas previsões da partida, que apontavam o Concepción como vitorioso na maioria das vezes, seja ao final do jogo, que trataram logo de diminuir o feito, dizendo que o adversário é fraco, que o goleiro falhou, que “deu tudo certo para o Vasco”, etc. Ganhar do Madureira na Copa do Brasil levando sufoco em campo neutro, não tem problema, mas a chuva de desculpas vem certeira quando se trata do Vasco. Porém, deixemos pra lá, vamos voltar aos desafinados de quem vínhamos conversando.
No dia seguinte, o vascaíno saiu de casa e parou diante do jornaleiro para ver as manchetes, procurou no celular os memes sobre a vitória, tratou de almoçar diante da televisão pra acompanhar os jornais esportivos. Conversou com os amigos sobre o jogo, riu da pedalada do Riascos com o jogo já ganho… enfim, aproveitou o dia seguinte como todo vascaíno deveria.
Bem… novamente, nem todos.
Alguns se preocuparam em retomar o discurso de ódio, em trazer de volta a novela das eleições que tanto nos prejudicou, em buscar não o melhor para o Vasco, mas para seus próprios interesses. Neste período em que o vascaíno quer paz para torcer pelo seu time, falar de futebol e deixar a política de lado, alguns desafinados teimam em tumultuar o andamento do clube, com ações que visam apenas perturbar a instituição no âmbito político. Por um lado, começam num descompassado abaixo assinado pedindo eleições diretas, agindo contra o clube quando incentiva o torcedor a virar sócio apenas em caso de mudança no processo eleitoral. Por outro lado, a disputa judicial pelo HD prejudica mais uma vez os vascaínos, colocando a instituição nas páginas policiais dos jornais.
Não é de hoje que o CASACA! avisa. Mas, passada a eleição, fica cada vez mais claro quem quer ajudar o Vasco e quem acha que o clube só pode caminhar se for sob seu controle. Caso contrário, vão tratar de inviabilizar toda e qualquer gestão que se apresentar, abdicando de uma oposição justa e propositiva em benefício ao Vasco, propagando o ódio, disseminando a discórdia entre os torcedores e levando ao caos em cada oportunidade. Sempre em sabotagem ao Vasco.
