Tive o cuidado de rever a partida contra o Vila Nova, embora a impressão vista no estádio se coadunasse, no fim das contas, com o observado na telinha.
Inicialmente seria ontem a oportunidade ideal para pôr Fellype Gabriel em campo desde o começo da partida. O treinador disse antes da peleja contra o Tupi e após a partida diante da equipe goiana, que não seria ideal ter o atleta entrando no segundo tempo.
O primeiro erro de Jorginho, neste caso, foi não escalá-lo desde o princípio, pois teria no banco, com fôlego para substituí-lo, Evander ou Mateus Vital e este último encaixaria também muito bem na função, pois é um jogador de frente e entraria sem a responsabilidade de cobrir ninguém diretamente, mas apenas recompor.
O segundo erro foi não ter um cabeça de área, primeiro volante se preferirem, no banco de reservas. Diguinho, apesar de voluntarioso e sem medo de se expor (fato) não esteve bem contra o Santos, perdeu na disputa de cabeça no gol do empate diante do Tupi e tem questionada a titularidade por muitos.
Diante disso, William Oliveira, que foi posto indevidamente em campo na partida contra o Santos, numa função que não é a de um primeiro volante (uma insistência, por sinal), deveria constar no banco de suplentes ontem, a não ser em razão de algum problema físico inibitório disso. Seria uma substituição lógica caso Diguinho ficasse pendurado com um cartão, ou não estivesse agradando. Não houve esse cuidado.
A partida morna, com domínio territorial do Vasco, esquentou com o inesperado gol da equipe visitante.
O Vasco, a partir daí, passou a criar oportunidades, inicialmente com uma bola na trave em belo chute de Pikachu, perdeu mais um gol e quando parecia próximo do empate tomou o segundo em nova desatenção da defesa e saída atabalhoada do assustado Jordi.
Mas a equipe até por volta dos 35 minutos ainda manteve alguma tranquilidade e organização, perdida nos 10 minutos derradeiros, quando chutões e lançamentos passaram a ser a opção ofensiva do time.
Em meio a tudo isso uma fraquíssima partida de Evander, e a certeza de muitos que teríamos na etapa derradeira a óbvia entrada de Fellype Gabriel no lugar do ainda jovem promissor (supondo que Jorginho já esquecera o dito em Juiz de Fora quando justificou a entrada do atleta desde o início do jogo), ou uma grande investida do treinador, com Mateus Vital jogando numa função em que ainda não teve oportunidade no Vasco.
A mexida de Diguinho por Madson, entretanto, foi a ousadia, mas já era a tentativa do conserto de uma má escolha na montagem do banco.
A entrada de Éder Luís no lugar de Evander foi um erro crasso.
O caso daquele que foi um bom ponteiro (extrema, segundo atacante, ou o nome que queiram dar) é a negação de uma realidade.
Não dá mais, por mais que o jogador queira, por mais que se torça, por mais que se elogie a sua volta aos gramados para Éder atuar um tempo inteiro, iniciar uma partida.
A experiência adquirida com anos de futebol, a verve ofensiva e a rapidez em lances curtos podem ser um grande trunfo para o Vasco ainda, desde que seja posto na cabeça do atleta ser ele uma grande opção para o time nos 20 minutos finais de jogo, quando entrará em algumas ocasiões (ou ele ou Caio Monteiro, dependendo do enquadramento da partida) e poderá ser decisivo, como foi diante do Santos na Vila, por exemplo.
A torcida vai entender com o tempo, o atleta vai perceber com o tempo e o trunfo pode ser utilizado para o bem de todos, inclusive do próprio jogador.
Todos ganham e teremos um atleta absolutamente concentrado nisso: em 20 minutos dar tudo e, com certeza, aí sim, mudar jogos, com construções ofensivas, assistências e gols.
O treinador se viu obrigado a tirar Diguinho. Apostou em Madson para abrir o jogo, mas deveria deixar o corredor para o lateral, fazendo com que Pikachu derivasse pelo meio e chamasse a marcação, o que se foi dito não foi feito, mas para a sorte do treinador dois atletas organizavam o Vasco muito bem: Julio dos Santos e Douglas Luiz.
Abra-se um parêntese para dizer que Douglas não é simplesmente um bom jogador, um atleta que toca bem a bola e tal. É um grande nome para o presente e futuro do Vasco. Sabe jogar e deve jogar muito mais.
Correndo do maniqueísmo que muitos textos reproduzem é justo destacar quanto à a escalação do talentoso jogador hoje e a entrada na partida contra o Tupi os méritos irrefutáveis do treinador Jorginho.
A entrada de Douglas, inclusive abriu oportunidade a que Julio Cesar atacasse com mais tranquilidade.
Errou o lateral demasiadamente nos cruzamentos, faltou talvez a ele arriscar mais, invadir a área em lances de fundo e não se desvencilhar da bola em algumas oportunidades, mas sim trabalhá-la melhor.
O setor esquerdo com Douglas ao invés de Andrezinho por ali oportuniza a mais avanços, pois a cobertura é melhor. Mas Julio Cesar, neste novo formato do time (se mantido como foi no primeiro tempo) precisa ganhar uma coisa que ele e Madson perderam: confiança.
São ambos atletas com condição de servirem como válvula de escape do time nas jogadas ofensivas pelas extremas.
O Vasco descontou e partia não para o empate, mas sim para a virada no marcador, o que seria uma grande injeção de ânimo para um grupo muito cobrado (justamente cobrado) atualmente pelo péssimo retorno após a parada do início de agosto. Mas aí Jorginho cometeu seu maior pecado no jogo.
O treinador tirou Julio dos Santos, que organizava de forma inteligente o meio cruzmaltino pelo lado direito, manteve no banco Mateus Vital, Fellype Gabriel e pôs Henrique, que até treina como volante de vez em quando, mas é lateral, não volante, e comprovou isso novamente.
A tentativa, se pensada de que o atleta viesse a se entender com Julio Cesar na lateral, com revezamentos constantes entre meia esquerda e extrema é uma suposição para lá de otimista, lembrando que do lado direito já se tentava, sem sucesso o mesmo.
Por mais incrível que se possa parecer o Vasco jogou 34 minutos com quatro laterais de ofício no time, um meia e três atacantes.
A partir da substituição, o time passou a atuar irremediavelmente desorganizado. Luan tentou, Madson tentou, Éder Luiz foi buscar bolas desde a intermediária do campo defensivo do Vasco, Pikachu foi voluntarioso, Thales (que pesado e sem pique, está jogando sua carreira fora) ficou brigando pela “primeira bola” no alto, Ederson buscou deslocar-se, mas o conjunto se apresentou desfigurado e praticamente inoperante.
Algumas chances foram criadas ainda, mais em bolas paradas, mas apenas pela perseverança de um time completamente desorganizado.
Não tenho a menor dúvida de que o Vasco possui hoje um dos oito melhores elencos do país, possui estrutura, possui comando interno e precisa encara a segundona como de fato ela é: uma competição na qual o clube entra para atropelar e que se tivesse sido planejada pela comissão técnica de forma mais corajosa – após o fim da invencibilidade em junho – poderia ter sido nela dada oportunidade a que nomes de jovens atletas aparecessem mais para o público, atuando regularmente.
Como disse no programa Casaca no Rádio! e repito, poupar os titulares para que atuassem uma vez por semana (seis, sete por jogo ou até mais) e experimentar os reservas, principalmente a base, nos jogos fora, ou ao menos uma vez por semana (caso dois jogos dentro ou dois fora fizessem parte da programação), tudo isso após o fim da invencibilidade histórica do clube (repiso), levaria o treinador a ter boas opções de escalação, a em cada jogo do Vasco disputado no seu estádio haver mais expectativa e presença do torcedor e a se perceber em circunstâncias muitas vezes adversas quais supostos reservas podem ser eventualmente grandes substitutos dos titulares definidos e na ponta da língua da massa vascaína.
Faço esse texto, como tantos outros, no intuito de não só ajudar como demonstrar minha confiança em quem cobro ou critico, dos atletas ao treinador.
Não torço a situação. Tenho plena convicção ser possível para o Vasco no mata-mata não parar no Santos e ter como céu o limite e deixo aqui umas últimas palavras. Que sirvam para algo ou para alguém. Já fico satisfeito com isso.
Quando se tem humildade para internamente admitir erros, perde-se alguma coisa, mas ganha-se o grupo.
Quando se tem coragem para individualmente passar verdades, duras verdades, a insatisfeitos, perde-se o sorriso do atleta momentaneamente, mas ganha-se, muitas vezes, um novo atleta para o futuro, afinal é melhor sorrir vermelho uma vez, do que amarelo sempre.
Quando se tem coerência, perde-se menos e ganha-se mais.
Sérgio Frias
PS: Feliz aniversário, pai.
